Who Can You Trust?


 

Vector, n.º b.03, Fevereiro de 2003

Texto redigido no âmbito de uma bolsa de doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, ao abrigo do programa POSI.

 

«[…] não habitamos um espaço homogéneo e vazio mas, bem pelo contrário, um espaço que está totalmente imerso em quantidades e é ao mesmo tempo fantasmático.»

Michel Foucault, «De Outros Espaços», Diacritics, vol. 16, nº 1, Primavera de 1986, versão portuguesa em Vector, Arquivo da Série A, ênfase minha

 

«No seu espírito, Ian visualizou Nicole, recostada em almofadões, no seu leito enorme, vestida com o seu roupão cor-de-rosa, com berloques, o pequeno-almoço num tabuleiro, diante de si, enquanto passava os olhos pelas listas apresentadas para aprovação. Já ouviu falar em nós, pensou ele. Sabe da nossa existência. Então é porque nós existimos mesmo. À semelhança de uma criança, que precisa de ter a sua mãe a observá-la, nós fomos criados, fisicamente validados, pelo olhar de Nicole.»

Philip K. Dick, O Tempo dos Simulacros, p. 123

 

Uma das questões que mais me motiva quando se trata de alar das possibilidades (inclusive estéticas) das tecnologias do virtual é a que respeita à relação entre qualidade e quantidade. Ou melhor, a que respeita à passagem – que também tem a sua genealogia – da qualidade à quantidade. Posso sentir frio ou calor, mas se quero saber se tenho febre utilizo um termómetro. Conduzo pela auto-estrada e dizem-me que estou a ir demasiado depressa, mas não abrando sem antes, quase como reflexo, consultar o velocímetro. Preciso de óculos, mas se não possuírem as dioptrias adequadas de nada me servem. Exemplos óbvios, dir-se-á, mas que mostram até que ponto esta necessidade de medir, e portanto dependência dos instrumentos de medição, é um dos sinais mais claros de uma certa definição de modernidade (como bem o atesta a ligação etimológica entre o «mod» de modernidade e o «med» de medida). Note-se contudo o quão atípica foi esta viragem no sentido da quantificação do mundo – tão recente quanto Galileu e tão contrária a uma matriz cultural que da linhagem grega tinha herdado o desprezo pelo utilitarismo da geometria, quase reduzida a agrimensura, e que da linhagem judaica conservava o receio bíblico do número e da contagem quando feitos por qualquer outra entidade que não Deus. Em pouco mais de trezentos anos, portanto, presume-se que graças ao braço armado da tecnologia, o quantificável toma a dianteira. Demonstra-o a sua manifestação mais recente, a digitalização1, verdadeiro sinal de uma pulsão levada ao seu grau áximo, na medida em aí o número e a contagem adquirem uma omnipresença antes impensável2.

Se se tratasse apenas de uma questão de nomenclatura, poder-se-ia afirmar que, se ao primeiro impulso correspondeu a modernidade, este novo fôlego é sinal de uma pós-modernidade. A classificação seria simpática, contudo praticamente inócua na medida em que, como um embrulho, não mostra as modificações mais importantes, isto é, as que têm lugar no interior. E o interior, claro está, é o indivíduo. Interessa portanto inventariar essas modificações, indo para além de meros nomes. O que aqui se propõe é uma forma algo transversal de fazê-lo. Tal como N. Katherine Hayles nos tem habituado, pelo menos desde The Cosmic Web, pode ser tão relevante a análise concreta a alterações no modo de actuação das instituições políticas, económicas ou sociais quanto a outros tipos de práticas que, ainda que distantes, estabelecem com as primeiras um contacto tangencial, partilhando contudo de um mesmo «clima de ideias». É o caso da produção literária, ou, mais especificamente (como é o caso de que aqui nos ocupamos), do género que Frederic Jameson classificou como sendo por excelência pós-moderno: a ficção científica3.

 

O humano à mercê do maquínico.

Segundo uma perspectiva naïf, disseminada porventura pelos mesmos que não hesitam em apontar Jules Verne como o fundador da ficção científica4 enquanto género literário, esta deveria ser lida como uma antecipação ou prenúncio de um futuro por vir, ou pelo menos de potencialidades que, sob determinadas condições, se tornaram ou virão a tornar no actual. Não que tal grelha de leitura (através da qual se reduziria todo um género literário à capacidade profética dos respectivos autores) seja de todo interdita, mas com ela corre-se o risco de conservar apenas aqueles títulos ou autores que deram uma imagem do futuro que, vá-se lá saber por que coincidência, se foi assemelhando aos presentes que se efectivaram, o que faz desse um caminho pouco aconselhável. Mais interessante – e, diríamos, mais produtiva – é uma leitura da ficção científica como uma exploração puramente conceptual de possibilidades-limite que, seguindo um caminho mais ou menos tortuoso, nos esclarecem sobre uma condição presente, por mais que esta possa surgir irreconhecível ao nível da manifestação textual. O setting da narrativa num tempo futuro deve então ser tomado essencialmente como um dispositivo que permite maximizar as liberdades narrativas5 afectando ao mínimo o imperativo da «suspension of disbelief»6. Se tal exploração continua a ser válida anos ou décadas depois (por vezes mais até do que na data da publicação inicial), tanto melhor. E, arriscamos afirmá-lo, se essa validade é compatível com uma análise mais profunda, não será de todo descabido tomá-la como uma forma perfeitamente legítima e viável de exploração quase-filosófica de problemas que transcendem o momento em que foram formulados.

Poderá ter-se tratado de falta de modéstia, mas o facto é que Philip K. Dick, recentemente recuperado no filme Minority Report7, via praticamente toda a sua obra como a tentativa de resposta a duas dessas questões magnas da filosofia: «O que é a realidade?» e «O que é ser humano?»8. O caso concreto de que aqui nos ocupamos, a atribuição de uma espécie de «realidade superior» ao quantificável e, a fortiori, aos dispositivos técnicos que permitem fazer dele algo concreto, pode ser tomado como um dos pontos de cruzamento de ambas as questões, pelo que a obra de Dick, quanto mais não seja pela forma explícita como o autor a deu a interpretar, se revela como das mais interessantes. Abreviando a tese fundamental deste artigo, antes de passarmos a uma explicação mais detalhada, quando a intrusão do quantificável por via da tecnologia se torna na «realidade por excelência», esta adquire uma autonomia – no duplo sentido de algo auto-suficiente e de algo à parte do humano – que faz dela algo indistinguível da magia, segundo a famosa frase de Arthur C. Clarke. Numa terminologia marxista, se assim se preferir, uma forma tecnológica de fetichismo, ou ainda, como no excerto em epígrafe de Foucault, um universo que, envolvendo-nos, possui algo de fantasmático quando o tentamos apreender. E, sublinhe-se, independentemente da magnitude do artefacto tecnológico que lhe está na origem, seja a grande máquina de controlo ou o quase intangível gadget.

Ilustrações não faltam, nem mesmo, como aqui faremos, se nos concentrarmos exclusivamente em Philip K. Dick. Quem não se limitou a ver o filme Blade Runner, tendo lido a novela que lhe serviu de inspiração, Do Androids Dream of Electric Sheep?9, com certeza recordará os mood organs, pequenas caixas negras10 que têm como função alterar o estado de espírito do seu utilizador. Logo nas primeiras páginas Rick Deckard e a sua mulher Iran discutem acerca do programa que ela deve utilizar:

«Do quarto veio a voz de Iran:
– Não consigo suportar a televisão antes do pequeno-almoço.
– Marca 888 – disse Rick […] – O desejo para ver televisão, não importa o que ela está a dar.
– Não me apetece marcar absolutamente nada agora – disse Iran.
– Então marca 3 – disse ele.
– Não posso marcar um fundo que estimula o meu córtex cerebral para querer marcar. Se não quero marcar, não quero marcar esse acima de todos porque então vou querer marcar, e querer marcar é precisamente agora o esforço mais estranho que consigo imaginar, apenas quero ficar sentada aqui na cama e fixar o chão.» (Do Androids Dream of Electric Sheep?, trad. port. Blade Runner: Perigo Iminente, pp. 11-12)

Ainda outro exemplo, para também aqui estabelecermos o tom. Em The Game Players of Titan11, as máquinas, sejam simples chaleiras ou automóveis autodirigíveis, possuem um dispositivo cibernético de inteligência artificial, aí chamado «Efeito Rushmore», que lhes permite registar (e posteriormente relatar, se solicitadas) toda a actividade em seu redor. E, tanto ou mais importante, pelo menos do ponto de vista da evolução da intriga, são incapazes de mentir ou de fazer avaliações incorrectas, sendo a única forma de conseguir destrinçar entre um verdadeiro ser humano e um vug (extraterrestre colonizador) que tomou a forma humana. Não se trata, em nenhum dos casos, da mais subtil das construções de Dick, mas, talvez pelo modo «despido» como surgem, ajudam a descobrir uma premissa que paira acima das variantes no seu tratamento: a de uma oposição entre o maquínico (que não se esgota na máquina), passível de – e redutível à – quantificação, e o ser humano enquanto algo que não pode esgotar-se numa descrição quantitativa de qualquer tipo, e que por isso se torna imprevisível. Pelo menos do ponto de vista da funcionalidade das distopias políticas onde habitualmente nos são apresentadas as personagens e as intrigas, a sua imprevisibilidade equivale à imperfeição, pelo que o imperativo sociopolítico para que esta seja eliminada só é realizável se o ser humano for submetido às imposições de uma técnica que procura funcionalizá-lo (o que em última análise, e é esse o único tom dissonante numa sinfonia de pessimismo, nunca pode ocorrer). Ainda que correndo o risco de simplificar demasiado, pois este padrão está longe de ocorrer em toda a sua obra, ora o «dispositivo» é uma máquina ou um elemento quase-maquínico (habitualmente um simulacro, ainda que o uso de drogas e o recurso a mutantes possa cumprir a mesma função, como veremos), ora é o próprio indivíduo que surge já como tendo assimilado as características da máquina, com todas as consequências que daí podem advir para o desenrolar da narrativa.

O primeiro caso é o mais imediatamente apreensível, mas também por isso o menos original e o menos rico em interpretações. A ideia distópica de uma sociedade totalmente funcionalizada tem 1984 de Orwell como marco, pelo que o risco de comparações é demasiado alto. Ainda assim, Philip K. Dick arriscou alguns cenários similares, quase todos em obras produzidas nos anos 5012, onde um qualquer dispositivo de tipo lógico-matemático se torna no princípio de gestão de toda uma sociedade. Em Solar Lottery13, toda a organização social depende de um dispositivo de selecção aleatória, inspirado na teoria matemática dos jogos, que «elege» o comandante supremo. Tal faz com que, como uma espécie de efeito colateral, os indivíduos avaliem o mundo de forma extremamente supersticiosa. Em Dr. Futurity, um «cubo vital» leva as ideias de «sobrevivência do mais forte» e de controlo demográfico ao paroxismo: uma nova fecundação apenas quando um indivíduo morre, aliada a uma (compreensível, dadas as premissas da narrativa) proibição da existência de médicos. E a ilustração mais evidente surge naquela que é quase unanimemente considerada a mais fraca das suas novelas, Vulcan’s Hammer: o governo da sociedade é entregue a um supercomputador, havendo «sucessão dinástica» apenas quando este é tornado obsoleto por um modelo mais sofisticado. Apesar da fragilidade da narrativa, é interessante atentar no par de oposições que a estrutura. Do lado humano, a personagem de William Barris, inicialmente um típico burocrata que procura subir dentro das regras, opõe-se à de Jason Dill, o director máximo responsável pela manutenção e introdução dos dados em Vulcan3, a máquina que governa. De forma equivalente, do lado das máquinas, Vulcan3 opõe-se a Vulcan2, a máquina que governava até se ter tornado tecnologicamente obsoleta. E, tal como Barris quer tornar Dill «obsoleto», Dill, depositando uma confiança maior em Vulcan2 (Vulcan3 já não seria, segundo ele, uma mera máquina, e sim um ser vivo dotado de emoções e consciência), procura ludibriar tanto Vulcan3 quanto os seus subordinados (como é o caso de Barris), mas mantendo até quase ao final a sua confiança no sistema: «You detest me because I put my faith in a machine? My God, every time you read a gauge or a dial or a meter, every time you ride in a car or a ship, aren’t you putting your faith in a machine?». Ao que Barris, entretanto já com uma nova opinião sobre máquinas que governam, responde, «But it’s not the same» (Three Early Novels, p. 360).

 

O maquínico omnipresente.

O que têm em comum os exemplos anteriores (e que poderá eventualmente ter sido uma das razões para Dick ter abandonado este tipo de tratamento, mesmo tendo regressado a ele em The Penultimate Truth14) é o facto de um mecanismo exterior de controlo ser ainda demasiado perceptível, e portanto sujeito a uma avaliação – e a uma contra-resposta – humana. Em obras posteriores, de que o exemplo máximo é The Simulacra15, é ainda de um mecanismo exterior que se trata, mas este está demasiado oculto para que a esmagadora maioria da população, se não mesmo a totalidade, tenha dele a menor consciência. Para que assim possa ocorrer, dito da forma mais abreviada possível, a máquina disfarça-se de humano, mas não sem assimilá-lo a si. Perante uma realidade que o envolve por inteiro mas que não consegue apreender, por lhe faltar até mesmo a percepção do papel determinante que a máquina aí tem, o humano age de forma maquínica. A não ser que se assuma a condição de outsider, dentro ou fora do sistema16. Talvez porque o próprio sistema, pelas suas características intrínsecas, produz outsiders. Em The Simulacra17 a sociedade (os Estados Unidos Euro-Americanos) está dividida entre Ges, conhecedores do segredo, e Bes, cumpridores de ordens18. O segredo máximo é o conhecimento da verdadeira forma de governação, um Conselho de anciãos, do facto de os supostos Altíssimos «eleitos» pela população serem robots-simulacros e de a indemovível e eternamente jovem Primeira Dama ser afinal um papel representado por uma actriz, substituída de tempos a tempos para conservar a juventude da personagem que encarna. Todos os que não o sabem são, por inerência, outsiders desprovidos de uma verdadeira liberdade política na medida em que ignoram a sua condição (ainda que saibam que existe uma diferença de classe relativamente aos Ges). Consoante a sua atitude, podem ser ora outsiders passivos, desejosos apenas de realizarem os seus sonhos (seja o de passarem a Ges ou o de tão-só terem a possibilidade de ver de perto a Primeira Dama), ou então outsiders que, conscientes dessa condição, aproveitam as brechas do sistema para ganho próprio ou, caso mais raro, para tentar alterá-lo.

São estes últimos aqueles que mais conseguem escapar a uma existência maquínica: Loony Luke, o dono de um sistema ambulante de venda de veículos espaciais em segunda mão, vive à beira da marginalidade porque a sua forma de ganhar a vida consiste em convencer, com a ajuda de um simulacro de uma adorável criatura marciana com capacidades telepáticas19, os indivíduos a emigrar para as colónias extraterrestres onde desfrutarão de maior liberdade; e em menor grau Nat Flieger, sonoplasta freelancer que usa um aparelho de gravação que é uma simbiose entre máquina e um organismo ganimedeano. Em ambos os casos, a notável associação a artefactos técnicos, mas num sentido positivo: podem ser impotentes perante o sistema social, mas são donos e senhores dos seus gadgets. Já o mesmo não pode ser dito dos outsiders de carácter passivo, como é o caso de Ian Duncan. A existência de Duncan gira em torno do sonho de apresentar o seu espectáculo de «bilha clássica»20 à Primeira Dama Nicole Thibodeaux. Quando finalmente o consegue, o fracasso a que é sujeito faz com que rompa com a sua passividade – e acima de tudo com as suas ilusões quase esquizofrénicas que, como é possível ler no excerto em epígrafe, o faziam sentir como não existente fora de um mundo do qual a máquina de governo (através da figura enganadoramente maternal de Nicole) é o fundamento. Apesar de sujeito a um apagamento da memória, é resgatado por Loony Luke, que o envia para as colónias livres de Marte, tornando assim possível uma separação do cordão umbilical que no final da novela se estende a outras personagens21.

Nem todos os desenlaces nas novelas de Dick são contudo tão utópicos. Noutros casos, o sistema maquínico de controlo está disseminado a tal ponto que é indetectável por parte do ser humano, sendo mesmo, nos casos mais extremos, interiorizado por este. Dito de outra forma, o princípio de funcionalização do indivíduo é muito mais eficaz na ausência da mediação da máquina. Outros dispositivos, muito mais subtis, encarregam-se dessa função, penetrando no interior da consciência do indivíduo e conduzindo, como resultado, à «maquinização» deste. Ora, tal pode ocorrer sob duas formas, uma mais permanente, outra mais pontual, a que chamaremos hard e soft. A forma hard consiste no uso de drogas22, a soft na interferência por parte de indivíduos com capacidades precognitivas, um mecanismo narrativo que acolhe a predilecção de Dick.

Não é aqui o local mais adequado para uma exploração detalhada de tais dispositivos, que vão para além da função que estamos por ora a atribuir-lhes, mas o rigor da exposição exige que sejam ao menos ilustrados. Em The Three Stigmata of Palmer Eldritch23, quase unanimemente considerada uma das suas novelas mais brilhantes, a droga ocupa um lugar destacado. Ou melhor, as drogas, no plural: a primeira, Can-D, permite aos colonos de Marte entrarem numa espécie de experiência mística e comunitária, regressando ilusoriamente ao ambiente mais acolhedor da Terra e encarnando, enquanto dura o efeito da droga, em bonecas similares às nossas Barbies. A metáfora não podia ser mais clara relativamente à posição que aqui tomamos: tomar Can-D equivale a ser transformado numa marioneta. Mas uma forma muito mais sombria de manipulação (de proporções tais que a Can-D é, comparativamente, algo inócuo) sobrevém quando Palmer Eldritch, um famoso empresário, regressa à Terra após uma ausência de dez anos, trazendo com ele a nova droga Chew-Z. Tomar Chew-Z é entrar de forma permanente num mundo totalmente idiossincrático, o mundo de Palmer Eldritch, verdadeiro dono (Deus?) dessa realidade onde todos, até mesmo aquele que alucina, apresentam nalgum momento um dos três estigmas de Eldritch, qualquer deles sinal de que este é mais cyborg do que humano: o braço mecânico, os dentes metálicos e os olhos artificiais. Chew-Z é, em The Three Stigmata of Palmer Eldritch (como mais tarde a Substance Death em A Scanner Darkly) talvez a ilustração mais extrema dessa relação, no limite irreversível, entre dependência da droga e um comportamento ditado pelo maquínico.

Noutros casos, a forma de controlo é mais benigna, levantando contudo questões como a do livre arbítrio. É o que acontece quando Dick recorre aos chamados precog, mutantes que têm a capacidade de ver o futuro, ou pelo menos um de diversos futuros alternativos, como foi recentemente mostrado na adaptação ao cinema do conto «The Minority Report»24. Optaremos contudo por descrever uma narrativa menos conhecida mas escrita imediatamente antes, The World Jones Made, quanto mais não seja porque aí sujeito e objecto da precognição coincidem. Jones, de início uma «atracção de feira», dotado da capacidade de antecipar o que vai ocorrer-lhe no lapso de um ano, usa esse dote em seu benefício, a ponto de chegar a líder de um movimento para-religioso que ameaça a estabilidade social. Contudo, desde o início sente o seu dom como uma maldição, na medida em que, como afirma a certo ponto, «Everything I do, everything I say, hear, experience, I have to grind over twice […] I am living the same life two times!» (The World Jones Made, p. 39). Uma vida vivida duas vezes, e na qual os seus actos «reais», por serem a repetição do que antecipara um ano antes, o forçam a agir de forma totalmente mecânica, previsível e inumana, até mesmo na «decisão» derradeira e automisericordiosa que o leva a deixar-se atingir mortalmente por uma bala.

 

Perante esta impotência do humano face à máquina que o «normaliza», há contudo um corolário que não pode deixar de ser assinalado. Como foi adequadamente assinalado por N. Katherine Hayles em How we Became Posthuman25 como uma das características mais idiossincráticas da obra de Dick, particularmente o que este produziu nos anos 60, toda a realidade pode ser vista «do avesso», não sendo invulgares as situações em que a máquina (o extraterreste, etc.) é capaz de actos mais humanos do que os do verdadeiro humano, isto é, inesperados e repletos de empatia. Demonstram-no o andróide-simulacro de Abraham Lincoln, em We Can Build you, o único capaz de sentir compaixão26 pela caótica vida sentimental de Louis Rosen, com a sua atracção doentia e quase maquínica pela adolescente Pris Frauenzimmer; em Now Wait for Last Year, os mecanimos semi-inteligentes que, deixados à solta, criam uma espécie de sociedade autónoma, ou ainda, nas linhas finais da mesma novela, o taxi automático que, quando questionado pela personagem principal acerca de uma relação atribulada, é capaz de dar respostas como «To abandon her would be to say I can’t endure reality as such.» (p. 225). Este é então, por diversas ocasiões, o resultado paradoxal, com as máquinas a darem lições de vida aos humanos, o que, de forma muito dialéctica, acaba por revelar, antes de mais a K. Dick, uma unidade mais profunda do que a polaridade inicial que o fazia opor radicalmente a máquina ao humano.

Para grandes unidades, grandes sistemas, e sendo o mais vasto dos sistemas uma visão do mundo ou uma religião, não é de estranhar que tenha sido para esse campo que Dick inflexionou a sua obra numa fase ainda mais tardia, já detectável nos textos dos anos 60, em particular na segunda metade da década, mas acima de tudo nos anos 70, quando um feixe de luz rosa tanto podia significar um aviso divino quanto uma mensagem codificada da entidade suprema de Inteligência Artificial. Deus = Machina. Mas essa é uma exegese que por agora nos escapa.

 

Bibliografia

[Nota: Nas obras de Dick, optou-se por apresentar a sua data de composição, e não a da primeira edição]

Baudrillard, Jean

1981 Simulacres et Simulation, ed. port. Simulacros e Simulação, Lisboa, Relógio d’Água, 1991, tradução de Maria João da Costa Pereira.

Dick, Philip K.

1954a Solar Lottery, ed. port. Lotaria Solar, Mem Martins, Europa-América, 1989, tradução de Samuel Soares.

1954b The World Jones Made, reed. Nova Iorque, Vintage Books, 1993.

1954c «The Minority Report», Fantastic Universe, Janeiro de 1956, reed. in Minority Report, Londres, Millennium/Gollancz, pp. 71-102.

1959 Dr. Futurity, reed. in Three Early Novels: The Man who Japed, Dr. Futurity, Vulcan’s Hammer, Londres, Millennium/Gollancz, 2000, pp. 145-284.

1960 Vulcan’s Hammer, reed. in Three Early Novels: The Man who Japed, Dr. Futurity, Vulcan’s Hammer, Londres, Millennium/Gollancz, pp. 285-411.

1962 We Can Build You, reed. Londres, Voyager, 1997.

1963a The Game Players of Titan, ed. port. Os Jogadores de Titã, Lisboa, Livros do Brasil, 1994, tradução de António Porto.

1963b The Simulacra, ed. port. O Tempo dos Simulacros, Lisboa, Livros do Brasil, tradução de António Porto, 1993.

1963c Now Wait for Last Year, reed. Londres, Voyager/Harper-Collins, 1996.

1964 The Three Stigmata of Palmer Eldritch, ed. port. Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, Lisboa, Europa-América, s/d, tradução de Carolina de Oliveira.

1966 Do Androids Dream of Electric Sheep?, ed. port. Blade Runner: Perigo Iminente, Mem Martins, Europa-América, s/d, tradução de Raquel Martins.

1978 «How to Build a Universe that Doesn’t Fall Apart Two Days Later», in Sutin, Lawrence (org.), The Shifting Realities of Philip K. Dick: Selected Literary and Philosophical Writings, Nova Iorque, Vintage, 1995.

Gillespie, Bruce

1991 «The Non-Science Fiction Novels of Philip K. Dick», BRG, n.º 1, Outubro de 1990, online in http://www.philipkdickfans.com/frank/nonsfnovels.htm.

Hayles, N. Katherine

1984 The Cosmic Web: Scientific Models and Literary Strategies in the 20th Century, Ithaca, Cornell University.

1999 «Turning Reality Inside out and Right Side Out: Boundary Work in the Mid-Sixties Novels of Philip K. Dick», in How We Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature and Informatics, Chicago, The University of Chicago Press, 1999, trad. port. «A Realidade do Avesso: A Questão da Fronteira na Obra de Philip K. Dick», Revista de Comunicação e Linguagens, n.º 30 («Pop»), pp. 107-142.

Mota, José Manuel

1995 O Efeito de Irreal: A Fantasia Científica de Philip K. Dick, tese de doutoramento em Literatura Inglesa, Coimbra, Universidade de Coimbra, policopiado.

Sutin, Lawrence (org.)

1995 The Shifting Realities of Philip K. Dick: Selected Literary and Philosophical Writings, Nova Iorque, Vintage.

 

Notas

1 Recorde-se que o equivalente do adjectivo «digital» é, em francês, «numérique», tal como «computador» fica «ordinateur».

2 A confirmá-lo, uma tendência que só por si mereceria um tratamento à parte, e que como tal referimos apenas de passagem: a da exploração das possibilidades do intercâmbio de funções: sendo o digital uma «massa» homogénea composta apenas por 0s e 1s, o que foi digitalizado com um objectivo pode servir de fonte para um outro meio, de forma quase parasitária. É disso exemplo uma peça artística online à qual fiz referência numa breve recensão para a revista online Interact, Time as Color, onde a medição do tempo se transforma num código de cores RGB.

3 Para ser mais preciso, um subgénero, o cyberpunk, e sem sequer adiantar uma razão para tal (cf. José Manuel Mota, O Efeito de Irreal: A Fantasia Científica de Philip K. Dick, p. xv), mas alarguemos, nem que seja em nome da exposição que se segue, a referência a todo o género.

4 Em boa verdade, foi H. G. Wells, outro autor também de modo geral aceite como avô deste género «bastardo», quem propôs o termo «Scientific Romance». Seria contudo necessário esperar mais alguns anos (até 1928, para ser mais preciso) para que Hugo Gernsback se referisse às histórias dos pulps que editava como «scientifiction».

5 Ainda que não deva alargar-se a afirmação a tudo o que foi produzido sob esse rótulo genérico: a chamada hard sf tem como característica identificadora a necessidade de se ser o mais rigoroso possível relativamente ao estado actual da ciência, o que só por si invalida mecanismos narrativos comuns como as capacidades precognitivas e telepáticas, mesmo quando supostamente provocadas por mutação genética (excepto se se tiver uma noção muito esotérica daquilo que é ciência).

6 É o que afirma Bruce Gillespie («The Non-Science Fiction Novels of Philip K. Dick», BRG, n.º 1, Outubro de 1990) a propósito do «desequilíbrio» qualitativo entre as novelas mainstream e as de ficção científica de Philip K. Dick, autor sobre o qual nos debruçaremos detalhadamente. Segundo Gillespie, os mundos retratados nas obras de ficção científica são «more real to the author than the accurately drawn worlds he presents in the non-sf novels. It is for this reason that the non-sf novels fail, not because of any ntrinsic demerits. […] In the end, they [as novelas mainstream] failed to sell because in them Dick was constantly pulling back from what he really wanted to say. […] the non-sf novels have little of the melodramatic flourishes that threaten to destroy so many of the sf novels. [… nas obras de ficção científica,] showing the underlying reality of things through surface appearances, Dick […] could tell his own truth.»

7 E em vias de voltar a sê-lo em A Scanner Darkly e Paycheck. [Nota posterior (Abril de 2004): Paycheck, realizado por John Woo, estreou nos EUA no dia de Natal de 2003, em Portugal a 20 de Fevereiro de 2004. Em contrapartida, a produção de A Scanner Darkly, de Steven Soderbergh, foi suspensa. Deverá estrear em 2005, mas com um novo argumento. O argumento inicial, da autoria de Charlie Kaufman, que também escreveu Being John Malkovich e Adaptation, está disponível em PDF na sua homepage.]

8 Cf., por exemplo, How to Build a Universe that Doesn’t Fall Apart Two Days Later», ensaio escrito em 1978 mas apenas publicado postumamente, reimpresso in The Shifting Realities of Philip K. Dick: Selected Literary and Philosophical Writings. Na p. 260 dessa edição pode ler-se «certain matters absolutely fascinate me, and […] I write about them all the time. The two basic topics that ascinate me are “What is reality?” and “What constitutes the authentic human being?”». Como o próprio afirma algumas linhas mais à frente, são questões mutuamente interligadas.

9 Ed. port. Blade Runner: Perigo Iminente, Mem Martins, Europa-América, s/d, tradução de Raquel Martins.

10 Refira-se que a novela teve por sua vez como ponto de partida um conto, escrito em 1963 e publicado em 1964, que se intitulava, justamente, «The Little Black Box».

11 Ed. port. Os Jogadores de Titã, Lisboa, Livros do Brasil, 1994, tradução de António Porto.

12 Obras de juventude, se assim se quiser chamar.

13 Ed port. Lotaria Solar, Mem Martins, Europa-América, 1989, tradução de Samuel Soares.

14 Onde curiosamente reaproveita algumas histórias que escrevera na década de 50.

15 Ed. port. O Tempo dos Simulacros, Lisboa, Livros do Brasil, tradução de António Porto, 1993.

16 Em The World Jones Made, de 1954, e The Man who Japed, de 1955, Dick apresenta pela primeira vez a figura do outsider. Mas só nas novelas dos anos 60, como The Simulacra, na qual nos deteremos um pouco mais, ela é explorada de modo aprofundado.

17 É bem verdade que foi a Philip K. Dick que Baudrillard foi buscar o conceito de simulacro. Mas terá sido no mínimo um leitor distraído. Chama-lhe K. Philip Dick (pp. 116 e 155 da edição portuguesa de Simulacros e Simulação), confunde (idem, p. 116) os implantes publicitários Nitz de The Simulacra com os pequenos organismos marcianos papoula (ainda que a função persuasiva acabe por ser equivalente), e troca (idem, p. 155) a narrativa de We Can Build You (Le bal des schizos, em francês, sem edição portuguesa) com a de The Simulacra (Simulacres em francês, O Tempo dos Simulacros em português) ainda que de facto ambos tenham o simulacro como tema fundamental e partilhem uma personagem secundária.

18 «Ges» são os Geheimnisträger, enquanto os «Bes» são Befahalträger.

19 É este o papoula ao qual Baudrillard se refere erroneamente.

20 A narrativa de Ian Duncan e do seu parceiro Al Miller foi publicada autonomamente como conto com o título «Novelty Act», praticamente sem alterações na redacção.

21 Como é possível adivinhar por estes breves relances às múltiplas narrativas cruzadas de The Simulacra, a novela permitiria que se continuasse a análise a partir da oposição entre máquina e humano. Não sendo tal possível por questões de espaço, devem contudo mencionar-se outras personagens onde ela tem lugar: o pianista telequinético Richard Kongrossian, também esquizofrénico e dependente de um «anúncio-implante» simbiótico; os retro-mutantes chuppers, aparentemente alheios a tudo (e portanto totalmente outsiders) mas antecipando o tempo em que triunfarão; Maury Frauenzimmer, construtor de simulacros que ganha estatuto de Ge num momento em que isso vem a significar que passou para o lado dos vencidos; Bertold Goltz, o líder de um movimento neo-religioso de resistência que afinal é o Presidente do Conselho dos anciãos, etc.

22 Convém não esquecer que Dick foi, ao longo de mais de uma década, viciado em anfetaminas, tendo aliás escrito na década de 70 A Scanner Darkly (em português O Homem Duplo) com base nessa experiência, ainda que apresentando-a mais uma vez sob a capa da ficção científica. Mas a presença de drogas (super designer drugs, se se quiser) nas suas novelas surge quase duas décadas antes.

23 Ed. port. Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, Lisboa, Europa-América, s/d, tradução de Carolina de Oliveira.

24 Saliente-se que a versão cinematográfica acaba por seguir um rumo bastante distinto do conto, que merece uma leitura, quanto mais não seja para se confrontarem as diferenças. Sem desvendar muito, adiante-se que, enquanto o conto é um exercício de exploração de todas as ambiguidades da ideia de precognição, o filme toma (à excepção do desenlace) essa premissa como algo intocável, concentrando-se apenas nas implicações éticas. Um pouco como ocorre actualmente nos debates sobre a clonagem…

25 How We Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature and Informatics, Chicago, The University of Chicago Press, 1999. O capítulo em causa, intitulado «Turning Reality Inside Out and Right Side Out: Boundary Work in the Mid-Sixties Novels of Philip K. Dick», foi por mim traduzido para a Revista de Comunicação e Linguagens, n.º 30 («Pop»), com o título «A Realidade do Avesso: A Questão da Fronteira na Obra de Philip K. Dick».

26 Podem encontrar-se funções similares associadas a extraterrestres, como é o caso do conto «Human is», de 1953, e dos pequenos marcianos bleekmen em Martian Time-Slip, de 1962.

 

Texto: 7/Fev/03

© Jorge Martins Rosa