Demasiado Sólido, Demasiado Gasoso


 

in Rogério Ferreira de Andrade (org.), Terrenos Vagos, Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas, 2002, pp. 71-74.

 

Primeira tarefa do social: cartografar o território e sedentarizar os que hão-de ser os seus habitantes. Contudo, por mais que se identifique o território até ao último milímetro, por mais que nenhum habitante pareça ter ficado à margem (dum ponto de vista estritamente estatístico), nem por isso se pode concluir que tudo se articule segundo os parâmetros normativos (logo, normalizadores) desse mesmo social. Uns falam do «impensado» da modernidade, outros de «resto», outros ainda de «nomadismo». Independentemente do nome ou daquilo a que este procura referir-se, há pelo menos a saudar que nem tudo desemboque numa infindável monotonia.

Essa era a vantagem da estrutura moderna de pensamento-acção: o que não pode ser apreendido é posto de lado, deixado ao abandono, tratado como insignificante até que haja uma forma de integração no mainstream. Enquanto tal não acontece, serve pelo menos de alternativa. Veja-se o que ocorreu com a «cultura popular» e depois com as chamadas «subculturas urbanas»: primeiro abaixo da cultura de elite, depois recuperadas pela sua «genuinidade», mas só na medida em que não lhes é autorizada a subida ao pedestal da sua concorrente. A estratégia actual (pós-moderna, mas só se os potenciais leitores fizerem questão de utilizar esse termo) é mais insidiosa na sua aparente subtileza: tudo é nivelado, de forma a que nem o termo dominante fica incólume1. Independentemente de qualquer juízo de valor, tudo parece hoje conduzir ao híbrido. Se é possível colocá-lo desta forma, o híbrido é o terreno da actualidade. Quererá isso dizer que deixou de haver lugar à alternativa?

Para avançar neste terreno, precisamos não de um mas sim de dois passos atrás. Antes de mais, relativamente ao próprio estatuto do híbrido. A relevância deste advém essencialmente da ligação entre elementos (e da fusão daí resultante), muito mais do que de cada um dos componentes originários. Tudo podendo ser um constituinte do híbrido, resistirá ao arrastamento a «boa velha» reflexão teórica e científica? Melhor: valerá a pena que ela resista? Admitindo que tal pode servir-nos, neste preciso texto, como apologia de uma abordagem menos «cerrada», nem por isso acreditamos que daí resulte ser menos rigorosa. Isto porque, sem ser preciso ir ao extremo proposto por Allucquère Rosanne Stone, em The War of Desire and Technology at the Close of the Mechanical Age, «uma narrativa de aventuras entrecruzada com incursões pela teoria» (p. 21), talvez haja toda a vantagem em, segundo a mesma, nos situarmos na «interface entre o relatório académico e o gesto performativo» (p. 177). Num tempo em que tudo é atravessado por essa indefinição e por esse hibridismo, a estratégia mais adequada consiste em compreender o «adversário» com as suas próprias armas. Nem exclusivamente «cientificista» nem exclusivamente poético, antes algo a meio caminho entre ambos. O mesmo servirá como caracterização do presente ensaio.

Nada havendo a acrescentar quanto a este primeiro recuo, façamos o segundo passo atrás. Está bem que o terreno do actual seja híbrido, mas o que pode afinal ser classificado como terreno ou território? E, sendo ele híbrido, não quererá tal dizer que, na justa medida em que nos é aqui proposto dissertar sobre «terrenos vagos», também este é – por força da hibridez – vago? No fim de contas, quando pode dizer-se que um território é vago? A nossa resposta: é vago quando permanece vago, como a khôra de Platão. Se, como afirmámos no início, o social tem como tarefa mapear o território, diremos que é vago quando essa cartografia se faz em vão, quando continua por traçar mesmo depois de escrito e reescrito, escapando a qualquer tentativa de apreensão. Onde o palimpsesto é a figura da escrita excessiva, levando à ilegibilidade, o carácter vago do território representa o oposto, a escrita permanentemente em falha, em defeito por mais que aí se escreva.

Com estas considerações preliminares em mente, podemos agora avançar para a questão fundamental: que territórios são hoje vagos? Muitos, sem qualquer dúvida, e cada um deles digno de atenção e reflexão. Não queremos orientar o nosso olhar para mais do que dois, que «despontam» pela sua novidade e pelo seu «peso» na definição da cultura actual2. Dum sabemos há algum tempo que pode ser metaforicamente caracterizado como um território – o corpo –; o outro é-o por definição – falamos do ciberespaço (ou «virtual», se a exigência de rigor não for excessiva).

Demasiado sólido o primeiro, mau grado a necessária dissociação que deve ser feita entre o corpo como conceito e a matéria que lhe serve de suporte3. Nenhum tratado de antropologia das sociedades primitivas dispensa uma referência às tatuagens e escarificações rituais que marcam o indivíduo como pertencendo à sua comunidade, nenhum sociólogo deve descurar a projecção das diferenças sociais no corpo e seu «modo de usar», nenhuma aproximação à teoria política deverá ignorar que é acima de tudo no corpo que radica a lei e a norma. Este último exemplo merece de resto uma maior atenção, por mais que isso equivalha a regressar à nunca respondida questão hobbesiana. Por que receio eu o outro? Porque ele pode atentar contra o meu corpo. Por que posso eu reclamar um direito à propriedade? Porque ela é um prolongamento do meu corpo e da sua actividade de trabalho. Onde reside a soberania? Na legitimidade (derivada de uma abdicação tácita do indivíduo?) de requisitar qualquer corpo físico como se fosse – repare-se na circularidade do raciocínio – um mero órgão do «corpo político e social».

Demasiado gasoso o segundo, por nele não assentarmos os pés e sim o intelecto (mesmo que aí se chegue por uma via diferente da da razão). Um «passeio» no ciberespaço pode ser tão exclusivamente textual quanto a leitura de um livro, tão visual quanto o folhear de um museu imaginário sem outro critério de (des)organização além do proporcionado pelos sucessivos hiper-saltos, tão emotivo quanto uma conversa (por mais que o ritmo seja por ora travado pela velocidade de escrita de cada um dos intervenientes). Para mais, trata-se de um espaço onde está muitas vezes ausente a visualização geométrica, quer por ser demasiado complexa para estar contida dentro dos limites das três dimensões espaciais, quer por não ter de todo uma existência independente do percurso concreto mas único de cada utilizador-flâneur4.

Mas será a diferença assim tão pronunciada? Aos nossos olhos, vermelho e violeta, as duas cores mais distantes do espectro de radiação visível, surgem como muito próximas. A percepção engana-nos, pois os receptores luminosos não são meros transpositores de uma frequência numa cor visível. Com o corpo e o ciberespaço ocorre o fenómeno inverso. Aparentemente distantes, terá sido necessária5 a tecnologia para nos darmos conta de como ambos são mutuamente convergentes. O corpo, na nossa opinião mantendo e acentuando uma tendência que vem a desenhar-se desde há largos séculos, caminha para uma cada vez maior intangibilidade. Ao mesmo tempo, o ciberespaço «solidifica-se».

Faria algum sentido falar aqui de uma relação de complementaridade, mas tal seria aceitar a resposta mais imediata, escamoteando a questão em vez de resolvê-la. E é de facto fácil manter a crença na solidez do corpo e na intangibilidade do espaço: cada um possuiria aquilo que ao outro falta, reduzindo-se tudo a mais uma situação de «atracção fatal». Ora, o que pretendemos descrever como convergência, usando uma expressão que foi recentemente apropriada pela economia, é muito mais um processo de fusão ou hibridação do que de mera complementaridade. Temos então de ver em que medida o corpo pôde chegar a ser tão impalpável (e tenderá a sê-lo cada vez mais), como o ciberespaço tem vindo a ganhar densidade, e como ambos se tocam no cada vez mais omnipresente conceito de cyborg.

A primeira tarefa exigiria a mais longa descrição, não se desse o caso de ser o fenómeno mais conhecido, o que nos poupa algumas palavras. Em todo o caso, nunca é demais recordar as torções conceptuais exigidas para articular – entre outros – corpo, carne e alma. Até a versão mais consensual, que dilui a alma no corpo6 ao mesmo tempo que reduz a carne à matéria que o constitui, tem evoluído no sentido de – passe a imagem – «retirar peso» ao corpo. De torná-lo mais maleável, mais plástico. Que isso seja conseguido por meio de um trabalho físico como a musculação, do recurso a próteses tecnológicas, ou mesmo do «esquecimento» da fisicalidade do corpo, em qualquer dos casos este passa a ser matéria apenas na medida em que é «matéria-prima», isto é, pronta a ser trabalhada. Recorde-se uma das diferenças entre os estados da matéria: esta é sólida quando possui e sustém uma forma própria, líquida (ou mesmo gasosa) quando se adapta à do recipiente que a contém. Cada vez mais adaptável ou intermutável, o corpo evita as definições estáveis ou estabilizadoras. E se na aparência os corpos estão cada vez mais iguais, mais uniformes e andróginos7, esse é apenas um efeito de superfície e em vias de ser combatido. Aqui se nota a dupla valência da tecnologia aplicada aos corpos: equipara-os no que respeita às suas potencialidades (basta usar a prótese adequada), promove a distinção sempre que uma aptidão individual (ou mesmo defeito)8 pode ser optimizada em benefício de determinada função, ou, em último caso, é o próprio indivíduo a usar a tecnologia (nem que seja através de uma simples coloração do cabelo) para poder dessa forma distinguir-se do seu semelhante.

Menos concretizada está a «densificação» do ciberespaço, o que não impede que tenha sido a todos anunciada com o sonante nome de «realidade virtual». Não é este o lugar para qualquer tipo de futurismo, nem crítico nem muito menos de tom propagandístico. Aliás, o futuro raramente corresponde às previsões, o que é bem capaz de querer dizer que a teledildónica pode vir a revelar-se como um fenómeno menor, ou que poucos serão cúmplices do «crime perfeito» que é a substituição da realidade pelo hiper-real. Muito mais relevante (e presente) é a possibilidade de nos ligarmos a uma realidade puramente informacional – a WWW é um exemplo – ou de a usarmos como princípio de compreensão e manipulação da realidade física e concreta9. Duas ilustrações deverão ser suficientes. Em primeiro lugar, poucas experiências serão tão espaciais quanto jogar um videojogo ou interagir numa MUD [Multi-User Dungeon ou Domain]. Mesmo quando o objectivo principal não é a conquista do espaço, é imprescindível a sua apropriação, como quando qualquer um de nós se apropria de uma rua à medida que esta se torna familiar10, transformando um mero espaço num habitável lugar. E aqui, tudo pode ser virtual menos a própria experiência – o hiper-realismo de jogos como a série Quake pode facilitar, por via da imersão sensorial, a sensação de pertença ao espaço (até à vertigem, nalguns casos), mas nunca foi condição necessária para tal, como o provam as MUD exclusivamente de texto. Segundo exemplo, quase em negativo: a «navegação» na Web. A experiência mais comum neste caso é a de desorientação, seja pelo excesso de informação (quantas vezes irrelevante, como um falso atalho), seja pela incapacidade de traçar de antemão o percurso a seguir (a não ser quando se caminha em sentido contrário)11. Por alguma razão se recorre invariavelmente ao que podemos equivaler a faróis e bússolas, ou seja, as bookmarks (listas de sites favoritos) e motores de pesquisa. É pelo menos assim que indicamos a outros como encontrar determinado conteúdo: «Não memorizei o endereço completo, que é demasiado grande, mas basta pesquisar “Media Lab” no AltaVista e escolher o site que surge em quinto lugar». Familiar… pelo menos tanto quanto na situação em que alguém quer saber como encontrar uma rua numa cidade desconhecida.

Tomando a partir de agora como estabelecido que ambos se aproximam, resta determinar o seu ponto de fuga. A mais fácil das tarefas é encontrar o nome pelo qual este é conhecido: cyborg. Descrever o conceito é algo menos imediato, carregado que está de significados que foi adquirindo ao longo das últimas décadas. À letra significa tão-só aquilo que levou Manfred Klynes a propor a palavra: um «organismo cibernético», ou melhor, já que todos os organismos se regem por processos de auto-regulação, a ligação de um corpo biológico a um artefacto protésico. Por mais que a imagem tornada comum pela ficção científica seja emblemática, um cyborg não tem necessariamente de ser um organismo biónico, ou seja, a prótese que se acopla à estrutura biológica não é exclusivamente fruto da tecnologia electrónica. É nessas outras possibilidades que apostam os autores e respectivos conceitos que, divergindo, enriquecem a ideia original de Klynes, com Donna Haraway à cabeça. Depois do seu famoso manifesto, tornou-se comum considerar como cyborg praticamente tudo aquilo que promova, mais do que a fusão, a ultrapassagem das categorias organizadas segundo um esquema simultaneamente de oposição e de dominação/submissão. O cyborg é por isso também o que escapa a categorias organizadas segundo oposições mutuamente exclusivas como feminino/masculino, capital/trabalho, homem/animal. O que aqui propomos – sem qualquer pretensão de originalidade – é alargar esse conjunto de híbridos ao par formado por corpo e (ciber)espaço. Nem que seja na já mencionada experiência da navegação pela Web, de resto um dos casos mais paradigmáticos em que a «viagem» se faz sem corpo, ou melhor, em que a sua dissolução12 é quase condição necessária para iniciar o percurso.

Que o primeiro elemento do par é praticamente uma invariante quando se recorre à noção de cyborg já o sabemos. Está contido na própria definição e é bem possível, aliás, que tal se deva àquilo que aqui caracterizámos como «solidez». O corpo é ainda, consoante a perspectiva adoptada, definido como o mais inalienável dos suportes ou como o produto (em constante mutação) das operações feitas sobre a carne. Em qualquer dos casos, impõe-se-nos como a primeira – e porventura como a última – das experiências. A caminho da intangibilidade e contudo ainda sólido…

O que pode então dizer-se do ciberespaço, sabendo-se que a sua «entrada em cena» não é propriamente uma novidade? Que a sua relevância tem vindo a crescer, saindo do fundo para o primeiro plano, ou, numa metáfora distinta da teatral, que deixou de ser uma mera geometria para ganhar definitivamente o estatuto de terreno, com toda a corporalidade que isso implica. Isto é, não o mapa, mesmo que à escala 1:1 e determinando de antemão o que será o território (o que seria uma posição similar à que Baudrillard por muitos anos defendeu), mas antes um outro território, de estatuto equivalente ao «real» (o que se aproxima da perspectiva de autores como Virilio). Mais limpo, mas não menos sólido do que a terra que pisamos.

 

Notas:

1 Estamos naturalmente a ser algo metafóricos e simplistas. Longe dos debates sobre o «pós-moderno», já Antonio Gramsci advertia para o facto de nenhuma classe poder assumir-se como hegemónica sem integrar aquelas sobre as quais pretende exercer o seu ascendente. Só que tal não é concretizável se não houver cedências mútuas – a cultura actual é por isso inevitavelmente um misto de cultura burguesa (que por sua vez resulta já de uma «degradação» da cultura aristocrática) e de cultura popular, com a particularidade adicional de serem os mass media os seus difusores.

2 O seu carácter de novidade é indubitável, mas nem todos dirão o mesmo do seu peso na actualidade. Este ensaio procura também defender essa afirmação.

3 Cf. o ensaio de José Bragança de Miranda intitulado «As Ligações do Corpo», in AAVV, Metamorfoses do Sentir, Lisboa, Balleteatro Edições.

4 Poder-se-ia, no limite, falar de uma parole sem langue, mas não seremos tão radicais, por mais que essa seja outra forma de categorizar esse terreno como «vago».

5 Ou será ainda necessária: onde termina o presente e começa o futuro?

6 Não esquecer, contudo, que o mind-body problem (da filosofia analítica e do cognitivismo) restaurou, mesmo que meramente como hipótese a refutar, as respostas dualistas.

7 Já em 1932 Ernst Jünger, em Der Arbeiter, fazia notar essa tendência para a indistinção entre os sexos, quer na aparência quer nas funções desempenhadas.

8 É bem conhecida a chamada de atenção, feita por Paul Virilio em Vitesse et politique, para a funcionalização das deficiências físicas. Numa perspectiva de mobilização total, um soldado surdo-mudo pode com toda a vantagem ser mobilizado para a artilharia pesada.

9 Por mais que haja razão para perguntar «que realidade física e concreta?», pois a verdade é que cada vez menos podemos dizer onde está a linha de distinção. Pense-se em todas as formas de modelização, design e simulação assistida por computador.

10 Uma referência a reter, tanto mais quanto é pouco conhecida, é Psychologie de l’espace, de Abraham Moles e Élisabeth Rohmer (Paris, Casterman, 1978).

11 Os estudos sobre interfaces e interacção homem-computador confirmam que o «botão» de «back» é a segunda acção mais comum quando se utiliza um browser. Cf. a coluna online «Alertbox», de Jakob Nielsen, em www.useit.com/alertbox/.

12 Virilio falaria aqui de «inércia».

 

Texto: 29/Fev/00

© Jorge Martins Rosa