Quando a Proximidade Acompanha a Distância

Tempo, Espaço e outras Dimensões nos Blogs e nas Redes Sociais

Colóquio «Proximidade e Distância», organizado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (CECC), Lisboa, Universidade Católica Portuguesa, 3 de Dezembro de 2009.
in Mário Franco e Bernd Sieberg (orgs.), Proximidade e Distância: Estudos sobre a Língua e a Cultura, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2011, pp. 181-197.

 

Não possuindo eu qualquer formação como linguista, escapam-me as subtilezas teórico-metodológicas do modelo proposto por Peter Koch e Wulf Oesterreicher. Ao tentar responder ao desafio de encontrar ligações às problemáticas e aos métodos das ciências da comunicação, a primeira associação mental que me foi despertada pelos opostos «proximidade» e «distância», talvez em tudo similar à que deles faz o senso comum, levou-me à inevitável colagem que se deu entre o uso puramente denotativo desses termos – como indicadores espaciais – e um dos seus usos derivados – como indicadores da outra dimensão fundamental da experiência, o tempo. Mas a oposição deve ainda ser compreendida, em usos que de tão comuns quase já nem são metafóricos, como forma de classificar todo o tipo de «distâncias», nomeadamente a social. Ora, se estamos perante termos que podem ser aplicados a tão diversas dimensões da experiência, tanto mais atenção se deve prestar a eventuais acertos e desacertos mútuos – o que, de certa forma, era já a intuição de Walter Benjamin quando definia a «aura» como a percepção de uma distância: nesse caso, algo que está socialmente longínquo por mais que esteja espacialmente próximo. Ainda que com pouco de «benjaminiana», a linha de análise que de seguida procuraremos esboçar a propósito do fenómeno recente das redes sociais partilha dessa percepção de que a coincidência entre proximidades ou entre distâncias está longe de ser a regra.

Tecnologia, Comunidade e Proximidade.

Se encetarmos uma leitura da história das tecnologias – em particular das tecnologias de comunicação – com base nessa grelha conceptual resultante das possíveis aplicações dos termos «proximidade» e «distância», depressa se configura uma complexa teia de ambiguidades. Mesmo tentando conferir a essa leitura uma objectividade científica, isto é, sociológica e antropológica, ora nos vem à memória a famosa oposição de Ferdinand Tönnies entre Gemeinschaft e Gesellschaft (segundo a qual a proximidade da Gemeinschaft se teria perdido no processo de modernização, dando lugar a um modo mais distante de relacionamento, porque funcionalizado pelas pressões da Gesellschaft), ora as múltiplas propostas, algumas à beira do tecno-eufórico, segundo as quais se defende que as sociedades se contraíram a ponto de termos actualmente apenas uma sociedade global (cf., ainda antes de Giddens e do polémico Paul Virilio, a visão sistémica de Niklas Luhmann). Não é este o local para uma análise fria e aprofundada dos méritos ou – especialmente – dos deméritos de qualquer das posições. Em vez disso, e continuando esta livre associação de ideias aberta pela oposição proximidade/distância, podemos pelo menos aceitar que a tecnologia contraiu o mundo quer espacial quer temporalmente, criando com isso as condições para uma redução de outro tipo de distâncias.

Deve contudo contrapor-se que daí não resulta, como se de uma poção mágica se tratasse, uma necessária proximidade nas relações entre os indivíduos. De resto – e é por isso que ainda hoje se ensina Tönnies, mesmo que mais e mais a título de curiosidade histórica –, há toda uma dinâmica do «deve e haver» na segmentação das sociedades nessas unidades funcionais habitualmente conhecidas como «organizações». Mais uma vez por defeito de formação, a ilustração que queremos privilegiar, preparando com isso o salto para o presente, é a que diz respeito aos meios de comunicação, nomeadamente a imprensa. Os jornais trazem notícias do que nos está distante (mesmo que os critérios editoriais acabem por dar uma visão deformada do mundo, como o satirizou uma famosa capa da revista The New Yorker de 29 de Março de 1976) e se desde o seu surgimento contribuíram para uma maior proximidade, em particular na dimensão temporal, os avanços da técnica hiperbolizaram-na, a ponto de se terem entronizado os conceitos de «instantâneo» e de «tempo real».

 

Capa da New Yorker, 29 de Março de 1976.

Capa da New Yorker, 29 de Março de 1976.

 

Contudo, e invocando de novo Walter Benjamin, como podemos reconhecer no nostálgico ensaio «Der Erzähler» [«O Narrador»], essas narrações de outros lugares tornaram-se uma tarefa profissional, para mais sujeita a formatações como a conhecida estrutura em pirâmide invertida do jornalismo. Aqui, impera outra forma – caracteristicamente moderna – de distância. À semelhança de uma célula com a sua membrana, a organização jornalística – como qualquer outra organização, de resto – possui barreiras que condicionam a entrada de quem pode desempenhar as funções que lhe vêm associadas. É certo que não tão rígidas como a de algumas guildas medievais, mas ainda assim barreiras, ora porque determinam quais os inputs dignos de passarem a output (o conhecido conceito de “gatekeeping”) ora, e tanto ou mais importante, porque o seu funcionamento depende de uma estrutura hierárquica que confere robustez a uma relação assimétrica entre os profissionais e o público, mero consumidor de notícias.

Foi perante a sempre renovada consciência deste panorama que por sucessivas ocasiões voltaram a depositar-se esperanças numa sua inversão graças às potencialidades de novíssimos meios. Já Bertolt Brecht, num ensaio de 1932 sobre a rádio como aparelho de comunicação («Der Rundfunk als Kommunikationsapparat»), falava das virtualidades – utópicas, diríamos – deste meio, e esse ensejo, mesmo que em versões mais soft, repetiu-se na ideia da televisão como serviço público, em particular na chamada «Community Television» – por mais que o proto-rapper Gil Scott-Heron afirmasse em 1971 que «The Revolution Will Not be Televised». Em tempos mais recentes, a esperança ganhou novo fôlego, primeiro com os BBS [Bulletin Board Systems], logo depois com a democratização do acesso à World Wide Web e em particular, já com esta instalada, com os blogs e com as redes sociais.

No que toca aos blogs, será talvez mas correcto associá-los a uma democratização da palavra do que a uma comunicação de proximidade. Seja como for, na medida em que até mesmo no mais idiossincrático e «umbiguista» dos blogs há a potencialidade de chegar a novos públicos, e que de modo geral – a não ser quando essa opção é desactivada – dispõem de um espaço para comentários, parece ser lógico categorizá-los como facilitadores da proximidade. Mas não nos adiantemos, que o seu papel actual poderá entretanto tornar-se mais claro.

Quanto às «redes sociais», o maior problema reside no facto de essa ser cada vez mais uma expressão «chapéu-de-chuva» para serviços da web que, quando observados mais ao pormenor, revelam notórias diferenças entre si, inclusive exibindo características mutuamente exclusivas (mesmo que não as globalmente mais determinantes). Na acepção mais consensual do termo, nem que seja porque é assim que se autodenominam, encontramos serviços como o Facebook, o Hi5, o Orkut ou o MySpace. Enumerar o que os aproxima e o que os distingue é tarefa quase fútil, dada a rapidez com que vão acrescentando funcionalidades e se vão mutuamente imitando1. Ora, a questão é que o termo é também usado para sites que, ainda que menos ambiciosos (ou tão-só mais especializados) exploram outras formas de ligação entre utilizadores: o Twitter, o Google Reader — este na pratica reduzido com as funções de partilha («share») e de aprovação («like»), direccionadas respectivamente a um círculo de contactos ou a todos os utilizadores do serviço –, o FriendFeed, o Flickr, entre outros, inclusive os orientados para um contexto profissional (caso do LinkedIn) ou académico (Academia.edu, CiteULike, etc.).

Abreviando e sistematizando – mesmo sabendo que é com esses actos que se iniciam as generalizações abusivas –, podemos classificar um determinado serviço na WWW como uma rede social sempre que é orientado para 1) a partilha instantânea [mesmo que a recepção seja diferida] de uma diversidade de conteúdos para 2) um conjunto restrito de contactos (com os quais formamos a «rede»), e 3) essa partilha pode ser recíproca (o que aponta para a qualidade «social» dessa rede). A advertência acerca do perigo de generalização é tanto mais pertinente quanto se verifica que, nos estudos académicos sobre a temática mais geral das utilizações da Web, há (pelo menos à data) uma desproporção entre uma elevada quantidade de análises a blogs2, mesmo que progressivamente compensada por uma tendência crescente para análises a redes sociais no sentido mais próprio do termo. Ainda assim, praticamente nada3 sobre os serviços que se diferenciam pelo modo peculiar como abordam a partilha de conteúdos – no Flickr os conteúdos são exclusivamente imagens (ou vídeos ultracurtos), no Twitter existe um limite de 140 caracteres por post, etc. O que se segue deve por isso ser tomado com um grão de sal, na medida em que resulta exclusivamente do cruzamento da resenha a alguma bibliografia académica sobre o tema (que reproduz as desproporções que acabam de ser mencionadas), do acompanhamento regular da imprensa online especializada em tecnologia – os tech-blogs, se assim se quiser chamar –, e de alguma reflexão pessoal resultante da prática q. b. em alguns desses serviços.

Novas Actividades, Novos Públicos?

Regressemos, pois, a questões de proximidade e distância. Recuando à sua origem, ou pelo menos a um momento anterior à sua vulgarização, os blogs eram olhados com alguma suspeita por serem associados a uma fútil exposição da vida privada, tornada pública perante uma audiência indiferenciada. Compreende-se por isso que a sua popularização – e depois, durante um certo período, entronização – se tivesse dado quando se percebeu que podiam igualmente (mesmo que não exclusivamente) servir como locais de discussão pública de questões públicas.

Suspeitamos, contudo, que é também esse o momento em que se dá uma primeira inflexão negativa no seu potencial enquanto meio de proximidade. Popularização acarreta massificação, e a massificação conduz a uma lenta mas firme (porque necessária) separação das águas consoante a qualidade (estilística, argumentativa, etc.) e a notoriedade (ora prévia, ora construída pelo próprio meio) de cada blogger. Aos diletantes uma audiência restrita, mesmo que se revelem verdadeiras autoridades em pequenos nichos; aos «famosos» a habitual fatia maior do bolo. Parece instalar-se assim uma estrutura de diferenciação, apesar de tudo hipoteticamente menos rígida do que aquela que regula a especialização profissional – até porque, salvo raras excepções, ser blogger é actividade não remunerada –, mas que de modo inegável aumenta a distância entre autor e público. Sem dúvida que o mecanismo dos comentários compensa alguma dessa distanciação; de resto, dum ponto de vista estritamente linguístico, é bem possível que possa demonstrar-se, recorrendo a modelos como o de Koch e Oesterreicher, que a linguagem dos blogs, em especial a dos comentários, apresenta marcas de proximidade. Não esqueçamos, contudo, que os comentários podem ser moderados, apagados, desligados, ou apenas ignorados: neste último caso reforçando a diferença, que diríamos hierárquica, entre a palavra do autor (que, quanto mais não seja, tem de fazer do seu site uma «casa arrumada») e as meras vozes dos leitores.

Mesmo que o objectivo esteja longe de ser o de compensar esta desigualdade estrutural nos blogs, as redes sociais apresentam, por comparação com estes, a diferença fundamental de se definirem por uma restrição da audiência – ou ao menos de uma audiência primária, que se presume mais fiel e regular4 – a uma rede limitada de contactos. Dado que escolhemos quem seguir e, mesmo que com algumas variações no modo de implementação, podemos também ter algum controlo relativamente a quem nos segue, parece razoável admitir que favorecem muito mais o estabelecimento de relações de proximidade. E mesmo em redes em que a modalidade pré-definida de «visibilidade» é pública – caso do Twitter –, a possibilidade de conferir um grau maior de privacidade (ou, reciprocamente, de filtrar a recepção através de «lista» configuráveis) é algo que contribui para uma redução do «ruído», restringindo a rede a um subconjunto de contactos com os quais podemos assumir uma maior confiança – por exemplo porque já nos eram mais próximos fora do mundo «virtual».

Tudo isto parece funcionar na teoria: mesmo que aceitemos desconhecidos na nossa rede de contactos, o simples facto de aceitarmos a conexão é sinal de uma disponibilidade para criar relações de proximidade. Ao contrário da combinação assimétrica que se dá entre autores tendencialmente públicos e leitores anónimos no caso dos blogs (de novo, com excepções que não interessa agora discriminar), nas redes sociais o valor «por omissão» seria a simetria e a reciprocidade. Na prática, contudo, a dinâmica das redes parece contrariar (ou pelo menos obrigar a que se modalizem) algumas destas pressuposições. Enumeremos algumas das variáveis que podem afectar essa simetria, e que mereceriam detalhadas análises empíricas para testar se de facto são relevantes:

  • Diferentes graus de actividade: tal como sugere o muito abusado Princípio de Pareto, é de admitir que a maioria do conteúdo partilhado numa rede seja proveniente de uma minoria dos contactos, que – quanto mais não seja pela elevada frequência de participação – adquirem com isso um maior capital social (logo, conduzindo a uma diferenciação relativamente aos que pouco participam). O mesmo para a leitura: ainda que pouco participativo, um utilizador pode ser um leitor atento e regular, diletante e ocasional, ou tão-só ausente.
  • Diferentes tipos de actividade: complementando o item anterior, é igualmente necessário diferenciar entre, por exemplo, aqueles que (participando pouco ou muito) tendem a iniciar o “diálogo” e os que preferem continuá-lo, comentando as entradas de outros – um pouco como o já acima indicado para os blogs, mas muito com menor assimetria;
  • Diferentes formas de participação e de interacção: variável que depende não só das funcionalidades disponibilizadas por cada rede social como da utilização que cada um faz delas: actualização de «status», partilha de notícias, de vídeos, de fotografias, de links, de resultados de jogos, inquéritos e outras aplicações, etc.
  • Actividade voluntária x actividade automática: Dada a crescente integração entre serviços através de APIs (Application Programming Interfaces), é também cada vez mais relevante saber se os contributos de cada utilizador maioritariamente iniciados pelo próprio ou feitos de modo automático a partir de um outro serviço. Como exemplo do grau de complexidade que pode ser conseguido com pouco esforço, uma partilha no Google Reader pode ser propagada ao Twitter e ao Facebook via FriendFeed, dando origem a vários fluxos de comentários, um por cada rede. Numa das redes o utilizador pode ter um elevado grau de participação, comentando outras entradas e respondendo aos comentários à sua; noutra pode não ter nenhuma presença além da do bot (isto é, um automatismo informático) que envia posts indiferente à respectiva reacção dos seus leitores.
  • Diferentes tipos de fontes: mesmo assumindo uma situação ideal em que se conjuguem as variáveis anteriores de modo a termos um utilizador com elevado grau de participação, com uma actividade bastante diversificada, e maioritariamente voluntária (i. e., não automática), qual a proveniência dos conteúdos que coloca à disposição da sua rede? Considerações puramente pessoais, como costuma ser o mais comum no caso de «status updates» como «Estou a trabalhar» ou «Vou agora para o concerto dos …», ou mesmo algo mais idiossincrático? Ou a republicação de vídeos, notícias e outros conteúdos cuja fonte é alheia, mesmo que devidamente personalizados com um comentário? E a que fontes recorre com maior regularidade?

 

A Vida dos Memes Online: O Caso dos Blogs.

É este o caso sobre o qual nos deteremos mais um pouco, por ser aí que nos parece estar a dar-se uma mutação mais significativa. No artigo «Meme-Tracking and the Dynamics of the News Cycle», de Jure Leskovec, Lars Backstrom e Jon Kleinberg, inicialmente apresentado em 2009 numa conferência da Association for Computing Machinery, os autores descrevem um método que procura concretizar essa aparentemente impossível tarefa de traçar o percurso de uma ideia sonante – um sound-bite, uma expressão que adquire uma súbita popularidade, ou, para utilizar o termo que se tornou mais comum, um «meme» – no universo online. Ainda que restringindo a análise aos sites noticiosos e aos blogs, algo que se justifica pelo carácter por omissão público destes, ao contrário da maioria das redes sociais, daí resulta um padrão que passamos a descrever, e que num segundo momento deverá ser confrontado com essa realidade algo distinta.

Depois de abstraídas as mutações que esses memes podem sofrer – o corpus analisado foi a cobertura da campanha presidencial americana de 2008, e a ilustração mais sonante que dão para uma dessas mutações é a frase de Sarah Palin «Our opponent is someone who sees America, it seems, as being so imperfect, imperfect enough that he’s palling around with terrorists who would target their own country» –, é aplicado um complexo algoritmo matemático que permite isolar aglomerados [clusters] de variantes, que são a partir daí tomados como unidades de análise. A frequência de ocorrência de cada uma dessas novas unidades foi analisada ao longo do eixo temporal, o que desde logo permite uma leitura da sua popularidade, isto é, da sua importância relativa (quer em número de ocorrências quer no seu tempo de “sobrevivência” num meio que não raras vezes consideramos efémero).

 

Algumas frases e respectiva popularidade ao longo do eixo temporal.

Algumas frases e respectiva popularidade ao longo do eixo temporal.

Fonte: Leskovec, Backstrom e Kleinberg 2009.

 

Foi de seguida criado um modelo abstracto com o objectivo de reproduzir o mais fielmente possível, a partir de algumas das variáveis identificadas, esse tipo de variação temporal. Nas palavras dos próprios autores, «to find basic ingredients that can produce synthetic dynamics of a broadly similar structure» (Leskovec, Backstrom e Kleinberg 2009: 6). Os «ingredientes» encontrados, que de certa forma puxam em sentidos diferentes (e daí o equilíbrio mais ou menos precário, isto é, menos ou mais duradouro que deles emana) foram o «efeito de imitação» – a tendência para reproduzir outras fontes – e a «proximidade temporal» [recency] – a tendência para preferir assuntos mais recentes. Nenhuma destas variáveis é por si só suficiente para produzir as curvas acima reproduzidas, mas a conjugação de ambas, mesmo que num modelo artificial, conduz a uma notória semelhança.

 

Modelo que procura reproduzir, a partir das variáveis isoladas, as curvas da Imagem 2.

Modelo que procura reproduzir, a partir das variáveis isoladas, as curvas da Imagem 2.

Fonte: Leskovec, Backstrom e Kleinberg 2009.

 

Uma terceira variável identificada, a «atractividade inicial» de uma notícia ou de um meme, serve apenas, tal como no serviço num jogo de ténis, para dar o primeiro impulso, sendo responsável pela diferente «energia» de cada unidade, e em parte pela sua maior ou menor sobrevivência – a extensão da curva no tempo –, mas não pelo formato da curva, que como vimos é praticamente uniforme. A existência de picos dominantes com uma frequência semanal pode por sua vez ser explicada pelos diferentes ritmos entre órgãos noticiosos diários e semanários, mas também não é suficiente para alterar a forma da curva.

Finalmente – e é daqui que irá resultar a hipótese mais relevante –, procurando uma análise diferenciada entre os meios de comunicação profissionais e os blogs, as curvas foram retraçadas tendo esta nova variável em conta. Embora tal não estivesse inicialmente previsto, verificou-se que, para cada unidade de análise, não só as curvas eram visivelmente distintas entre sites noticiosos e blogs como os respectivos picos se encontravam desfasados.

 

Diferença entre sites noticiosos e blogs na publicação de notícias e respectivas frases identificadoras.

Diferença entre sites noticiosos e blogs na publicação de notícias e respectivas frases identificadoras.

Fonte: Leskovec, Backstrom e Kleinberg 2009.

 

Assim, os sites noticiosos, possivelmente devido a efeitos organizacionais já por demais estudados, como a ética da objectividade e da neutralidade ou os critérios de noticiabilidade e de gatekeeping, e embora adiantando-se aos blogs, demoram um pouco mais a atingir o pico, mas a pressão da novidade parece ser mais determinante do que o efeito de imitação, pelo que a queda é habitualmente rápida depois de se atingir esse pico. De modo quase inverso, nos blogs a subida no volume de referências é menos acentuada, mas, atingido o pico, o decrescimento é bastante mais lento. E – como o gráfico demonstra sem lugar para dúvidas – há um outro tipo de efeito de imitação, que os autores classificam como «passagem de testemunho» [phrase handoff] entre sites noticiosos e blogs5, com um desfasamento temporal de, em média, apenas duas horas e meia: quando os primeiros começam a abandonar um assunto, os últimos estão a relançá-lo, como que insuflando-o de nova vitalidade.

A metáfora biológica faz de resto todo o sentido, pois, se a curva típica para cada unidade for traçada a partir da frequência relativa do volume de menções entre blogs e sites noticiosos, a variação temporal combinada produz um gráfico que em tudo se assemelha ao bater de um coração: uma primeira sístole logo que os bloggers mais atentos «apanham» uma frase e a divulgam (mas ainda sem grande expressão em valores absolutos); uma inversão nos pesos relativos quando os sites jornalísticos assumem o domínio (a cava no gráfico), e nova sístole quando o testemunho é devolvido aos blogs.

 

Variação temporal na frequência relativa do volume de menções entre blogs e sites noticiosos.

Variação temporal na frequência relativa do volume de menções entre blogs e sites noticiosos.

56% representa o rácio médio de menções em blogs (contra 44% em sites noticiosos).

Fonte: Leskovec, Backstrom e Kleinberg 2009.

 

Dos Blogs para as Redes Sociais.

Chegado o momento de passar do empiricamente demonstrado para a especulação hipotética, retomemos os termos «proximidade» e «distância». Como perece indicar este estudo no qual nos focámos, a WWW, em particular no que respeita à articulação entre blogs e sites noticiosos, parece estar a aproximar-se cada vez mais do ideal da «real time web»: mesmo estando-nos vedada a instantaneidade, os desfasamentos entre o aparecimento dum post e a sua divulgação através das redes sociais já chegam a ser de apenas minutos. Depois do famoso «mcluhanismo» sobre a «aldeia global», parece agora estar a ser conquistada a proximidade na dimensão temporal, mesmo que ela acarrete um menor «tempo de vida» na rede – e portanto também uma maior competição pela relevância e pela popularidade, factores que permitem estender esse curto tempo de que dispõem para tornar-se um meme. Não esqueçamos, contudo, o sentido social da oposição entre proximidade e distância, indicador de igualdades ou diferenças entre os actores, configurando uma ou mais escalas (de prestígio, por exemplo) ao longo das quais estes se posicionam. Pelo que nos é dado a ver nesse estudo de Leskovec, Backstrom e Kleinberg, tudo leva a crer que pouco mudou: apesar da falada democratização do acesso à palavra com a tecnologia dos blogs, estes parecem funcionar muito mais como amplificador das notícias e sound-bites que emanam dos meios profissionalizados de comunicação do que como geradores de novos conteúdos.

Ainda que sem a sustentação de um estudo empírico de teor similar, não queremos deixar de tentar uma extrapolação para os serviços conhecidos como redes sociais. Socorremo-nos mais uma vez de um artigo, desta vez de «No Place for News in Social Network Web Sites?», da autoria de Mike Thelwall, procurando contudo – uma vez que este, datado de 2008, remete para uma investigação empírica feita entre 2006 e 2007 – especular sobre a sua acuidade no momento em que estas linhas são escritas. O título do artigo apresenta desde logo uma posição (quase diríamos doutrinal) inversa da que até aqui tomámos: ao perguntar se nos sites de redes sociais não há lugar para as notícias, o autor trai uma compreensível preferência pela existência nos blogs de discussões sobre temas da actualidade, em particular temas políticos. Jürgen Habermas, Michael Schudson e Noam Chomsky são por isso presenças de rigor na sua bibliografia, apontando para esse bem conhecido ideal da esfera pública burguesa, supondo-se nos blogs ao menos a existência de um potencial para a sua renovação sob novos termos. Talvez um pau de dois bicos, como pode ler-se na seguinte passagem, mas ainda assim com mais virtualidades positivas do que negativas:

«An upsurge in popular ongoing news debate could potentially undermine the power of the media and widen democracy in the sense of allowing more people to publicly debate governmental decisions more often. Conversely, an increasing volume of online news debate may give new opportunities for the media and politicians to use data mining techniques  […] to directly discover and react to public opinion, either by responding to pressure or by developing more effective or targeted persuasion strategies.» (Thelwall 2008: 727)

Os blogs, sob a condição de promoverem essa discussão – e portanto de não serem meros diários íntimos tornados públicos –, dariam por isso um valioso contributo ao alargarem aos não-especialistas a possibilidade de um envolvimento activo: os peritos nem por isso perdem o seu estatuto e a função que lhe vem associada (muitos deles repetindo e amplificando online uma reputação que previamente possuem), mas a novidade consiste na voz do «cidadão comum». E – embora isso mal seja mencionado no artigo, que se apressa na passagem às redes sociais – também potenciando uma inversão do fluxo noticioso: isto é, permitindo fazer desse «cidadão comum» simultaneamente uma nova fonte e um novo meio alternativo de comunicação de factos e acontecimentos com valor-notícia6. A crescente popularidade dos sites de redes sociais permitiria então, pelo menos tanto quanto os blogs, estender o debate a novos intervenientes:

«The focus on popular general social network sites rather than specialist news sites is a deliberate one, motivated by a desire to investigate whether news-related debate is taking place among a wider public than those with a particular interest in politics or the news. If there has been a genuine upsurge in news discussion triggered by the increasing use by the population of many nations of social network environments then this would have important implications for democracy.» (Thelwall 2008: 727, ênfase nossa)

Todavia, feita a recolha e a análise dos dados – que Mike Thelwall, apesar das múltiplas metodologias aplicadas, restringe à rede Windows Live Spaces –, verifica-se que os temas de discussão são maioritariamente «mundanos» (aniversários, festividades e eventos similares), havendo ainda uma notória desproporção entre os cerca de 10 por cento de páginas ou grupos com temáticas políticas e 27 por cento no caso dos blogs. Apenas no caso dos links – que o autor descura, o que nos parece uma falha a assinalar7 – esta distância se atenua, passando a 21 por cento de links para conteúdo político na rede Live Spaces, ainda assim abaixo dos 34 por cento nos blogs que constituíram a amostra.

A conclusão não surpreende, e nem os blogs são poupados:

«From the perspective of the political health of nations (the extent to which an active “public sphere” […] exists), it seems that popular social network environments are not contributing to political debate to any significant extent and neither are popular blog environments. Blogs are contributing to the news, but mainly in special cases of a few high profile semi-professional or professional commentators and specialist bloggers, such as journalists.» (Thelwall 2008: 741)

A experiência que temos, contudo – mesmo reconhecendo que ela vale apenas enquanto como testemunho isolado de um «observador participante», parece apontar para um cenário distinto, pelo menos no que respeita ao actual detentor do trono de popularidade a nível mundial, a rede Facebook. Presentemente com uma rede de cerca de 350 contactos no Facebook, e apesar de um notório enviesamento resultante do facto de uma grande maioria desses contactos – entre ex-colegas, ex-alunos e outras conexões resultantes de contactos profissionais e académicos – possuir à partida uma apetência para a discussão de temas da actualidade, o autor destas linhas depara-se frequentemente com uma imagem bastante distinta da que é relatada por Mike Thelwall. Sendo certo que abundam também as utilizações «mundanas» – a publicação de fotos de momentos de convívio, a partilha de vídeos musicais, a realização de questionários, a adesão a grupos (pouco activos para além da mera existência e angariação de membros) dedicados a temáticas por vezes estapafúrdias (mas nem por isso desprovidas de uma bem achada intenção lúdica), e actividades afins, estas são nitidamente conciliáveis com usos mais sérios. Assim, podem – também com grande frequência – encontrar-se republicações de notícias acabadas de encontrar nas edições online dos órgãos noticiosos mas também noutros sites e blogs (indo ao encontro das análises de Leskovec, Backstrom e Kleinberg), adesões a grupos que promovem as mais diversas causas sociais, actualizações de status que reflectem opiniões pessoais e posicionamentos políticos perante factos actuais, divulgações de eventos (maioritariamente culturais mas também de teor social e político), etc. Num mesmo dia, de resto, um utilizador medianamente activo pode diversificar a sua actividade entre qualquer destas possibilidades, fazendo um questionário inconsequente logo depois de divulgar uma notícia (muitas vezes republicando-a de outro contacto que a tenha descoberto, mas acrescentando-lhe a sua perspectiva pessoal), ou espalhar por todos os seus contactos um apelo a que assinem uma petição enquanto adiciona fotos de momentos de lazer a um álbum acessível a toda a sua rede de contactos.

Estas linhas finais devem por isso ser entendidas, ao contrário da sua habitual função conclusiva, como um apelo a uma análise mais aprofundada, só esta permitindo verificar em que ponto devem ser situadas as novíssimas redes de comunicação nesse continuum que vai da proximidade à distância. Muito provavelmente nem cumprindo o ideal de proximidade como utopia tecno-eufórica (como nos faz suspeitar o estudo de Leskovec, Backstrom e Kleinberg), nem caindo nos abismos da proximidade reduzida ao banal, que não é mais do que outra forma de conservar as distâncias (como receia Mike Thelwall).

 

Bibliografia

Benjamin, Walter

1936 «Der Erzähler», trad. port. «O Narrador», in Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio d’Água, 1992, pp. 27-57.

Boyd, Danah

2007 «Why Youth (Heart) Social Network Sites: The Role of Networked Publics», in David Buckingham (org.), Teenage Social Life,(MacArthur Foundation Series on Digital Learning: Youth, Identity, and Digital Media Volume), Cambridge (MA), The MIT Press, pp. 119-142.

2008 «Facebook’s Privacy Trainwreck: Exposure, Invasion, and Social Convergence», Convergence: The International Journal of Research into Media Technologies, vol. 14, n.º 1, pp. 13-20.

Brecht, Bertolt

1932 «Der Rundfunk als Kommunikationsapparat», in Bjitter des Hessischen Landestheaters Darmstadt, n.º 16, Julho de 1932.

Leskovec, Jure, Backstrom, Lars e Kleinberg Jon

2009 «Meme-Tracking and the Dynamics of the News Cycle» Comunicação apresentada na conferência anual da Association for Computing Machinery 2009, texto não oficial in http://www.cs.cornell.edu/home/kleinber/kdd09-quotes.pdf.

Kenix, Linda

2009 «Blogs as Alternative», Journal of Computer Mediated Communication, n.º 14, pp. 790-822.

McKeena, Laura e Pole, Antoinette

2008 «What do Bloggers Do: An Average Day on an Average Political Blog», Public Choice, n.º 134, pp. 97-108.

Thelwall, Mike

2008 «No Place for News in Social Network Web Sites?», Online Information Review, vol. 32, n.º 6, pp. 726-744.

Vergeer, Maurice, e Hermans, Liesbeth

2008 «Analising Online Political Discussions: Methodological Considerations», Javnost: The Public, vol. 15, n.º 2, pp. 37-56.

 

Notas

1 O que não tem de ser contraditório com a afirmação imediatamente anterior: as diferenças fundamentais podem manter-se, por mais que se imitem inovações introduzidas pela «concorrência». Uma ilustração é o caso da prática de «retweet» no Twitter. De forma não estruturada nem prevista nas funcionalidades do servidor, popularizou-se a republicação de tweets, precedendo-os de «RT» e de uma chamada ao autor original. Antes ainda de o serviço ter oficializado esta prática, o Facebook já introduzira uma muito semelhante, a que deram o nome «Share», e que permite também incluir uma referência autorial. Percebe-se a cópia de funcionalidades, mas as diferenças – não havendo aqui espaço para enunciá-las – são também perceptíveis.

2 Na bibliografia estão listados alguns desses artigos, que, ainda que minimamente relevantes para o tema aqui em causa, na sua maioria padecem dessa preferência pelos blogs.

3 Uma interessante excepção – quanto mais não seja pelo seu pioneirismo – é o caso dos artigos de Danah Boyd, inicialmente incidindo sobre o Friendster e sobre o MySpace (então as redes sociais mais usadas nos Estados Unidos), e mais recentemente sobre o Facebook. Cf., entre outros possíveis, «Why Youth (Heart) Social Network Sites: The Role of Networked Publics in Teenage Social Life» (Boyd, 2007).

4 São recorrentes as polémicas em torno das políticas de privacidade e respectivos valores «por omissão». Tal tem sido em particular notório no caso do Facebook, que já por diversas vezes «afinou» os seus termos de utilização, quase sempre caminhando no sentido de uma redução do grau de privacidade, de um aumento da visibilidade nos motores de busca, etc. Ainda assim, isso não contraria a existência de um «público primário», que é constituído pelo conjunto de contactos («amigos») que são escolhidos voluntariamente, e cuja actividade pode ser mais facilmente acompanhada. O artigo «Facebook’s Privacy Trainwreck: Exposure, Invasion, and Social Convergence», de Danah Boyd (2008), embora já desactualizado face aos desenvolvimentos mais recentes, permite identificar uma tendência que entretanto se reforçou.

5 Fenómeno detectado noutras ocasiões, e que, somado a uma recepção selectiva de acordo com as posições políticas dos leitores, tende a reforçá-las. Laura McKenna e Antoinette Pole, em «What do Bloggers Do: An Average Day on an Average Political Blog» (McKenna e Pole, 2008) chamam-lhe «echo chamber» [«câmara de eco»]: «According to the “echo chamber” theory of blogs, bloggers amplify views from party and media elites that reflect their own political predispositions (Wallsten 2005). Providing links to mainstream news sources and blogs is clearly an important function of blogs. However, we do not know how often bloggers link to other sources. We also do not know whether they criticize their sources or passively link to them.» (McKenna e Pole, 2008, p. 98)

6 Claro que, como já fomos deixando no ar, se trata de uma batalha desigual, entre meios que possuem uma reputação prévia que apenas lhes exige sustentarem uma audiência que lhes é legada pelo simples facto de serem meios de massas, e, com diversos níveis intermédios, indivíduos quase anónimos que têm de conquistar a mais pequena das audiências. Cf., por exemplo, o artigo «Blogs as Alternative», de Linda Kenix (Kenix, 2009).

7 Além de lhes prestar menor atenção, não é claro se se trata de links dos blogs ou redes sociais para sites com conteúdo político (o que nos pareceria fazer mais sentido) ou – como parece entretanto depreender-se (cf. Thelwall, 2008, p. 738) – destes para os blogs ou redes. A direccionalidade é um factor relevante, que aí é mal desenvolvido.