Posfácio a Herlander Elias, O Videojogo e o Entretenimento Global

Posfácio a Herlander Elias, O Videojogo e o Entretenimento Global: First Person Shooter, Lisboa, Media XXI, 2008.

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Se, há não muito tempo, podia lamentar-se a escassez da investigação em Portugal sobre os videojogos — academicamente séria e rigorosa, entenda-se –, hoje esse é um problema que pode dar-se como resolvido. De início reticente, a academia deu-se progressivamente conta de que não podia continuar a ignorar um fenómeno tão omnipresente e tão multifacetado que para a sua análise têm de ser convocadas áreas do conhecimento como a psicologia, a economia, a sociologia ou as ciências da comunicação, mas ao mesmo tempo tão sui generis que foi necessário cunhar-lhe um nome: «ludologia» (ainda que, estritamente falando, o termo denote apenas uma dessas múltiplas perspectivas, a dominante na Europa, em especial nos países nórdicos, e na América do Sul, enquanto nos Estados Unidos tem prevalecido a narratológica, que se lhe opõe).

Retomando o raciocínio, passadas perto de quatro décadas depois do aparecimento dos primeiros videojogos, três depois da conquista do grande público, e talvez uma e meia depois da tomada de consciência de que não basta uma teoria dos efeitos para abarcar toda a complexidade do fenómeno, as prioridades começam a alterar-se, mesmo num país periférico como o nosso. Pouco a pouco, vai sendo constituída uma rede de investigadores, disseminada pelas instituições de ensino superior — e portanto felizmente acima de qualquer corporativismo, pois é o interesse pela ludologia que os move. É contudo urgente entrar em contacto com um público mais alargado, quer para que seja divulgado o trabalho desses investigadores nacionais – quase sempre jovens, ou não fosse a familiaridade com os videojogos uma questão acima de tudo geracional (mas não etária) –, quer para que cheguem até nós ecos do que lá por fora se vai fazendo neste campo.

Este trabalho de Herlander Elias, originalmente a sua dissertação de mestrado em Ciências da Comunicação, defendida em 2007 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL, dá um valioso contributo para que ambas as lacunas sejam preenchidas. O estilo predominantemente jornalístico — fruto de alguns anos de exercício em publicações ligadas à área da informática e dos videojogos – poderá parecer demasiado leve; na verdade, apenas demonstra que é possível aliar o rigor a essa leveza.

Tendo os videojogos sofrido uma estonteante evolução — ao nível da complexidade, do realismo, etc. — desde os pioneiros Space War ou Adventure, é hoje possível dedicar toda uma pesquisa académica a apenas um dos seus múltiplos géneros: no caso, aos «First Person Shooters», habitualmente designados apenas pelo acrónimo FPS. A leitura do trabalho é quanto basta para confirmar a sensatez dessa opção. Como eu próprio argumentei há alguns anos, e como Herlander Elias também demonstra, este tem-se progressivamente tornado o mais inclusivo dos géneros, sugando características que antes lhe eram estranhas. Por outro lado, o seu domínio tem vindo a estender-se a áreas menos lúdicas como a das interfaces gráficas (ou GUI, de «Graphical User Interfaces»): fruto da sofisticação do software (os reality engines) e da integração com o restante hardware (as placas gráficas e de som, os joysticks e joypads com feedback táctil), o ecrã tornou-se um substituto suficiente, se não mesmo preferível, de uma prometida mas sempre adiada realidade virtual multi-sensorial — como afirma o autor a certo momento, as suas limitações podem ser usadas para potenciar, à semelhança do «fora de campo» do cinema, o factor surpresa (ou mesmo angústia, para o jogador que é surpreendido), elemento-chave dos FPS. Mesmo que outras razões não houvesse — mas relativamente a essas devemos deixar que as páginas que antecedem este posfácio falem por si –, estas são suficientes para justificar, do lado do autor, a escolha do tema, e para presumir, do lado do leitor, uma curiosidade que o fará pegar neste livro e absorver atentamente o seu conteúdo. Sei, na qualidade de um dos seus primeiros leitores, que as expectativas não serão defraudadas.


© Jorge Martins Rosa
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Texto: Mar/08
Actualização: 29/Out/09