Prefácio a Philip K. Dick, O Andróide e o Humano
Prefácio à colectânea de ensaios de Philip K. Dick, O Andróide e o Humano, Lisboa, Vega, 2006. Licença Creative Commons: distribuição autorizada para usos não comerciais; interdita a cópia, modificação ou qualquer tipo de uso que não mencione a autoria original.
«“Oh, God”, Gordon said with such irritation that the waiter stepped back, his composure gone. Penny laughed out loud, which made the waiter even more uncertain. Even Gordon smiled, and his mood was broken. Penny’s forced merriment got them through most of the meal. She produced a book from her handbag and pressed it on him. “It’s the new Phil Dick.” He glanced at the lurid cover. The Man in the High Castle. “Haven’t got time.” “Make the time. It’s really good. You’ve read his other stuff, haven’t you?” Gordon shrugged off the subject.» Gregory Benford, Timescape
Abra-se a edição mais recente (de 1993) da Encyclopedia of Science Fiction na entrada «PHILIP K. DICK». Logo no parágrafo inicial, é-nos dito que se trata de «one of the two or three most important figures in 20th century US sf and an author of general significance» (Stableford e Clute, 1993, p. 328)1. Sendo a objectividade da crítica aquilo que sabemos – especialmente num campo literário à margem, como o é o da ficção científica, muito mais sujeito a paixões e temperamentos pessoais –, poder-se-ia tratar tão-só de um louvor ocasional. Não é esse o caso: em torno de K. Dick nasceu uma unanimidade só igualada por autores que ou antecedem o próprio nascimento da ficção científica como etiqueta literária – caso de H. G. Wells – ou sub-repticiamente souberam afastar-se do estigma que é ser um escritor de género – ocorrem-nos os nomes de Ray Bradbury e Ursula K. Le Guin, embora William Gibson esteja também prestes a saltar essa fronteira. Voltando a Dick e à unanimidade que gerou: foi o primeiro autor a merecer um número especial da revista académica Science-Fiction Studies2, ainda em vida (o ano era 1975), a honra foi-lhe de novo concedida postumamente (em 1988), e desses números e outros artigos avulso resultou uma colectânea (em 1992). É, ainda hoje, dos autores da «genre SF» sobre quem se escrevem mais artigos e teses académicas, não só nos Estados Unidos e nos países anglófonos como também em França (onde se pode dizer que começou a «dickmania»3) e Itália ou locais mais inesperados como a Finlândia, a Islândia e mesmo a Turquia ou o Líbano. Em Portugal, José Manuel Mota, da Universidade de Coimbra, defendeu no ano de 1995 a primeira tese de doutoramento no nosso país sobre o autor, intitulada O Efeito de Irreal: A Fantasia Científica de Philip K. Dick. A atenção por parte da comunidade académica remonta pelo menos ao ano de 1973, quando o escritor polaco Stanisław Lem – o autor de Solaris – publica um arrasador e influente artigo intitulado «Science Fiction, a Hopeless Case – With Exceptions» sobre o estado geral da ficção científica nos Estados Unidos à época. Um único autor – Philip K. Dick – é redimido do «hopeless case» que, segundo Lem, a SF4 americana era desde o primeiro número da Amazing Stories que inaugurou, em 1926, a chamada «genre SF». Ora, foi precisamente essa «literatura de cordel» que acompanhou a infância e adolescência de Philip K. Dick, o que nos leva a perguntar como conseguiu ele elevar-se acima daquilo que Lem considerava uma mediocridade endémica ao género. A resposta não é simples, até porque Dick começou por ser – e continuou a sê-lo durante pelo menos uma década de escrita profissional – um autor renitente àquilo que produzia. Tendo nascido em Chicago, a 16 de Dezembro de 1928, mudou-se aos cinco anos para Washington D. C. com a mãe, que entretanto se separara. Em 1938 uma nova e mais duradoura mudança para Berkeley, na Califórnia, a cidade universitária por excelência. Ainda que muito pouco sociável, o seu apetite pela leitura alia-se à influência do meio, levando-o a querer emular os seus escritores favoritos. Mas os dois universos – o da «alta literatura» e o da ficção científica – mantinham-se separados: de Jonathan Swift a Dostoievski ou Joyce, uma tradição estabelecida e respeitável, sobre a qual se podiam tecer distraidamente comentários com qualquer estudante de literatura; as space operas de E. E. «Doc» Smith ou as tortuosas aventuras de A. E. van Vogt constituíam, pelo contrário, um passatempo fútil e imaturo, à beira do inconfessável. Já adulto, quando trabalhava numa loja de discos e electrodomésticos – depois de uma meteórica passagem pela universidade, que abandonaria sem completar uma única disciplina –, conhece Anthony Boucher, escritor e editor do Magazine of Fantasy and Science Fiction, descobrindo não só que não era o único leitor do género a escapar ao estereótipo do adolescente borbulhento como também que poderia fazer da escrita um meio de subsistência. Mas o double standard nem por isso desaparece: de 1951 (quando Boucher lhe compra o conto «Roog») a Outubro de 1960 (data em que submete a novela Humpty-Dumpty in Oakland ao seu agente), a produção literária de K. Dick alterna entre os títulos – particularmente contos, mas também algumas novelas curtas – de ficção científica, com alguma fantasy pelo meio, e as longas novelas realistas. Toda a literatura de género é comprada e publicada; todas as obras realistas – que satisfariam a sua aspiração a escritor «sério» – são rejeitadas. Com uma (quase) excepção. Time out of Joint, novela terminada em 1958 e publicada no ano seguinte – o seu primeiro hardback –, publicitada na capa como «a novel of menace», começa por tomar a aparência de uma narrativa estritamente realista e só a pouco e pouco o leitor começa a descortinar um cenário de ficção científica. A fórmula parece resultar, pelo menos quando se trata de negociar com os editores – SF disfarçada de realismo. Com The Man in the High Castle, de 1962, Dick aventura-se de novo nesse terreno híbrido – é uma «história alternativa» em que as potências do Eixo vencem a II Guerra Mundial –, mas as circunstâncias mostram que a fórmula deve ser interpretada de outro modo. As vendas da edição da Putnam, que permitiriam conotar a obra com um género mais mainstream, são bastante baixas, disparando todavia quando a novela é republicada na colecção do «Science Fiction Book Club». No ano seguinte, The Man in the High Castle ganharia o prémio Hugo (ainda hoje um dos maiores galardões da literatura de ficção científica), e com isso o destino de Dick ficaria traçado: a ficção científica vende e o realismo não, ou, invertendo a hipótese acima, o realismo só vende quando disfarçado de SF. Pouco importa que Dick tenha conscientemente encontrado a solução para o seu dilema ou que tenha apenas tropeçado nela, só disso tomando consciência numa fase bastante tardia5. É bem provável, aliás, que nunca tenha exorcizado por completo o auto-induzido estigma de ser um autor de «trash literature», algo que contudo se transformaria em virtude mais ou menos na mesma altura em que Lem louvava a obra de K. Dick por razões similares6. Mas não nos adiantemos, que os anos 70 ainda vinham longe quando The Man in the High Castle foi publicado. Logo depois dessa novela, e ao longo de quase toda a década de 60, o ritmo de produtividade de Dick aumenta brutalmente7, em boa parte devido ao (ab)uso de anfetaminas – só em 1963, completou 4 novelas, 15 short stories, novellettes e novellas (uma, «Cantata 140», seria a primeira parte de The Crack in Space), e uma «serialização» («All we Marsmen», adaptação de Martian Time-Slip, escrito no ano anterior, a um formato em três «episódios»). Não se pode no entanto afirmar que Dick se contasse entre os autores mais populares: não voltaria a ganhar outro Hugo (apenas mais duas nomeações, em 1968 para «Faith of our Fathers» e em 1975 para Flow my Tears, the Policeman Said), não passou das nomeações para o Nebula8, e o único outro prémio que recebeu foi, também por Flow my Tears, the Policeman Said, o John W. Campbell Memorial Award – uma ironia, se pensarmos que o editor John Campbell lhe comprou um único conto («Impostor»), ainda no recuado ano de 1953. Para esta fama muito relativa (ou melhor, a falta dela) contribuíram os temas que desde sempre o obcecaram e o modo muito idiossincrático como os abordava. Nas suas palavras, num dos ensaios deste volume, «How to Build a Universe that doesn’t Fall apart two Days Later», «Os dois temas básicos que me fascinam são: “O que é a realidade?” e “O que constitui o autêntico ser humano?” Durante os vinte e sete anos em que tenho publicado novelas e contos, investiguei repetidamente estes dois temas que se inter-relacionam. Considero-os extremamente importantes. O que somos nós? O que nos rodeia e a que chamamos não-eu, mundo empírico ou fenoménico?» É pois durante a década de 60 que, já assumida a filiação à literatura de género, se vai dedicar intensivamente a explorar esses temas. Novelas como Martian Time-Slip9, The Three Stigmata of Palmer Eldritch, Do Androids Dream of Electric Sheep? ou Ubik são, por esse motivo e com toda a justeza, apontadas como as suas obras-primas. Noutras novelas – o excesso de produtividade nem sempre é acompanhado por uma qualidade correspondente –, os resultados ficam aquém do conseguido com estas, mas são raras as que não merecem ser redescobertas e relidas. Now Wait for Last Year (recentemente editada em Portugal), A Maze of Death, Galactic Pot-Healer e o mais do que problemático The Unteleported Man10, apenas para mencionar as mais relevantes, são indispensáveis complementos a esses títulos maiores quando se pretende obter uma imagem mais fiel daquilo que podemos nomear como uma «perspectiva dickiana do mundo». Sobre a questão «O que constitui o autêntico ser humano?» Dick terá encontrado uma solução que lhe serviu, pelo menos nos seus traços mais gerais, e acerca da qual escreveu em dois dos seus esparsos ensaios, «The Android and the Human» (originalmente um discurso que apresentou como convidado de honra numa con11 em Vancouver, em 1972), e «Man, Android and Machine» (publicado numa antologia de ensaios de escritores, organizada por Peter Nicholls, em 1976). Nesses ensaios – em especial no primeiro, que o mais tardio inflecte por outros caminhos, devido a motivos que entretanto se tornarão claros – explicita o princípio que subjaz a um conjunto nada desprezável de obras escritas ainda na década de 60. We can Build You é dos primeiros títulos a abordar a questão12: uma das personagens, Pris Frauenzimmer, sofre de esquizoidismo, sendo portanto desprovida de emoções, comportando-se na prática – excepto no ambíguo, se não redentor, final – como um robot ou andróide. Em contrapartida, o simulacro (i. e., andróide) de Abraham Lincoln, construído por Pris, aparenta possuir uma profunda empatia pela angústia amorosa de Louis Rosen, o protagonista-narrador. Nessa como noutras novelas – e Do Androids Dream of Electric Sheep?, mais ainda do que a conhecida adaptação ao cinema, Blade Runner, continua a ser o caso paradigmático – andróide e humano quase trocam de posições. Ou melhor, o que define andróide e humano não é a sua origem, maquínica ou orgânica, e sim as acções, rígidas ou empáticas, perante os semelhantes. Um andróide pode agir humanamente tanto quanto um humano (i. e., um humano esquizóide) pode comportar-se como um andróide. «The Android and the Human» é então o ensaio que condensa essa «teoria» que foi apurando durante as décadas anteriores. Décadas atribuladas, se pensarmos no contexto social (do mccarthyismo dos fifties à contracultura dos sixties, por exemplo), mas também na sua vida. Quando se desloca ao Canadá para apresentar esse artigo, Philip K. Dick contava já com três casamentos e divórcios (na verdade quatro, mas o primeiro foi efémero e anterior ao início da sua carreira), com separações que de cada vez o levavam a depressões mais profundas, e com uma dependência galopante das anfetaminas. A visita a Vancouver viria de resto, e por uma acumulação de circunstâncias, a constituir um ponto de viragem, que esse ensaio não deixa adivinhar. Liberto duma espiral de decadência – a sua casa tornara-se então um local frequentado por toxicodependentes –, contudo emocionalmente desprovido de apoio, decide não regressar; nesse curto intervalo de tempo (pouco mais de um mês) anda à deriva, tenta o suicídio, entra numa clínica de desintoxicação e regressa à Califórnia, para não mais tocar nas anfetaminas. Mas se muita água correu até esse fatídico ano de 1972, algo mais bizarro estaria ainda para vir. Começa a reorganizar a sua vida em Fullerton – onde ainda hoje, na universidade aí sediada, estão os seus manuscritos –, casa-se pela quinta vez, e lentamente recomeça a escrever. Fosse por crise de inspiração, pela falta de anfetaminas, por uma maior maturidade na escrita, ou porque os royalties de novelas anteriores e respectivas traduções começavam pouco a pouco a libertá-lo dessa pressão, certo é que a sua produtividade não voltaria nem de longe a aproximar-se da de décadas anteriores. Em 1973 termina apenas Flow my Tears, the Policeman Said, novela começada e abandonada em 1970, e um polémico conto, «The Pre-Persons». E em 1974, dias depois da extracção de um dente do siso infectado, uma inexplicável sequência de visões que se prolongaria por quase dois meses: a visão de um feixe de luz rosa, de um peixe de reflexos dourados13, de uma sequência de quadros abstractos, a audição de palavras numa língua desconhecida que Dick declararia mais tarde tratar-se do grego koiné do início da era cristã, e a mensagem de que o seu filho mais novo, Christopher, sofreria de uma hérnia inguinal. De entre este conjunto de alucinações que o acometeu, a última é talvez a mais intrigante, pois nenhum médico havia detectado o problema mas este diagnóstico viria a confirmar-se. Para Dick era impossível ignorar o que experienciara, e a sua qualidade de escritor de ficção científica com um saber até certo ponto «enciclopédico» – ainda que autodidacta e por vezes acrítico – não permitiria que simplesmente aplicasse uma «navalha de Occam» e encerrasse o assunto explicando-o como reacção a um cocktail químico de potentes analgésicos (receitados pelo dentista) e vitaminas (tomadas em automedicação) num organismo debilitado por anos de abuso de estimulantes. K. Dick enveredou por um emaranhado de explicações para aquilo a que chamou «2-3-74» (combinando os meses e o ano em que as visões foram mais intensas), ora assumindo cada uma das hipóteses como mutuamente exclusiva ora, no limite da racionalidade, conjugando-as segundo inesperadas combinações ao mesmo tempo que tentava evitar a ameaça de contradição logo que esta despontava. Até à sua morte, em 1982, anotou essas especulações num diário predominantemente manuscrito14 a que chamou – compreensivelmente – Exegesis. Segundo Lawrence Sutin, o mais rigoroso dos seus biógrafos e responsável pela edição de alguns excertos, esse trabalho ascende a cerca de oito mil páginas. Toda a sua produção ficcional daí em diante viria a estar assombrada por essa experiência e pelas explicações – predominantemente teológicas – com que tentou dar-lhe sentido. O mesmo, por maioria de razão, ocorre nos ensaios. «Man, Android and Machine», apesar da semelhança no título com o anterior, é por isso visivelmente distinto – mais insano, dirão alguns15 –, retomando o tema do andróide como mero ponto de partida para esse outro, muito mais abrangente e irresolúvel na sua obra, da relação entre percepção e realidade. O próprio K. Dick reconhece que algo mudou: «Não pretendo abandonar a minha dicotomia entre o que chamo “humano” e o que designo como “andróide”, sendo que entendo este último como uma imitação cruel e barata do primeiro, destinada a finalidades ignóbeis. Contudo, limitei-me a lidar com aparências superficiais; para tornar clara a diferença entre essas categorias é necessário mais engenho.» É preciso, pois, ir ainda mais longe na capacidade de discernir entre aparência e realidade, mesmo que tal venha a significar que a malignidade de Palmer Eldritch, identificada pelos estigmas que dão nome a essa novela – o braço mecânico, o visor electrónico, e principalmente a máscara – talvez esconda afinal uma inocência profunda: «Durante anos, o tema da minha escrita foi “O demónio tem uma cara de metal.” Talvez deva agora emendá-lo. O que eu vi e descrevi não era uma cara; era uma máscara sobre uma cara. E a cara verdadeira é o reverso da máscara. É óbvio que assim seja. Não se coloca metal frio sobre metal frio. Coloca-se sobre carne macia […]. Pensava antes que só alguém pérfido usaria uma máscara assustadora, mas podem agora ver o quanto fui enganado pela magia da máscara, pela sua magia terrivelmente assustadora, pela sua ilusão.» A resposta de Dick a esse enigma, que não desvendamos para aguçar o apetite do leitor, só parece surpreendente – um verdadeiro non sequitur – a quem não tomou contacto com o contexto ontoteológico (e profundamente gnóstico) das suas especulações, da Exegesis às últimas novelas, conhecidas como a «Trilogia de VALIS»16. Tanto ou mais surpreendentes são as ilustrações a que Dick recorre, quase sempre retiradas de novelas muito anteriores, como se estas possuíssem uma clarividência cujo sentido só depois de 1974 pôde ser compreendido17, com a obra a explicar tanto a vida quanto – em última análise – a própria estrutura da realidade. Um inequívoco exemplo dessa forma de raciocinar ocorre no mais tardio dos ensaios, «How to Build a Universe that doesn’t Fall apart Two Days Later», também inicialmente um discurso para uma convenção, que contudo não chegou a apresentar: «Em 1970, escrevi uma novela intitulada Flow my Tears, the Policeman Said. […] Certa tarde, estava eu a falar com o meu pároco […] e, por acaso, referi-lhe uma cena importante […]. À medida que eu descrevia mais detalhadamente a cena, o meu pároco ia ficando mais inquieto. Por fim, disse, “Essa cena é do livro dos Actos dos Apóstolos, da Bíblia! Nos Actos, a pessoa que encontra o homem negro na estrada chama-se Filipe – o seu nome.” […] Fui para casa e li a cena dos Actos. Sim, o Padre Rasch tinha razão […]. Uma cuidadosa análise à minha novela mostra que, por razões que não consigo sequer começar a explicar, eu consegui reescrever um conjunto de incidentes fundamentais de um determinado livro da Bíblia, até mesmo com os nomes certos.» A Bíblia (mas também muitos textos apócrifos) torna-se a chave para compreender esta ou outras novelas, as novelas tornam-se a chave para explicar as suas experiências místicas de Fevereiro e Março de 1974, estas experiências tornam-se a chave para explicar o tecido da realidade. Daí a famosa definição – também presente nesse ensaio, que num certo sentido sintetiza os anteriores – que dá da realidade, ainda que, segundo aí afirma, a tivesse intuído antes de «2-3-74»: «Um dia […] uma estudante universitária pediu-me para definir a realidade, para um trabalho que estava a escrever para a cadeira de filosofia. Ela queria uma definição numa só frase. Pensei um pouco e finalmente respondi: “A realidade é aquilo que não desaparece quando se deixa de acreditar nela.” […] Isto aconteceu em 1972. Desde então, não voltei a conseguir definir a realidade com tão grande lucidez.» Ora, o que nos dizem novelas como Ubik ou The Three Stigmata of Palmer Eldritch (escritas ainda nos anos 60) é precisamente isso, ainda que de forma menos explícita: que o único critério que temos para aferir a «realidade» da Realidade é o facto de ela resultar de um acordo intersubjectivo a que não podemos furtar-nos (e a que Dick chamava koinos kosmos). Nas novelas que constituem a «Trilogia de VALIS», a ideia torna-se não só explícita como elaborada por todo esse fundo – mais do que teológico – apocalíptico18: a verdadeira face da realidade oculta-se, revelando-se contudo aos mais atentos (ou eleitos) quando lhe aplicamos a grelha correcta de leitura. Ou então – para todos –, quando o seu triunfo sobre a aparência (e sobre ilusões como a do tempo) se tornar inevitável e irresistível: «Porque, quando o tempo acabar, as aves e os hipopótamos e os leões e os veados da Disneylândia vão deixar de ser simulacros e, pela primeira vez, ouvir-se-á cantar um pássaro verdadeiro.»
Os ensaios aqui compilados trazem portanto, ao grande público leitor português, mais do que uma faceta por vezes descurada da obra de Philip K. Dick, um conjunto de preciosas pistas para dar unidade à sua produção ficcional, bem como aos filmes que nela se inspiraram (como o recente A Scanner Darkly). Ainda que tendo sido generosamente traduzido no nosso país – quase todos os títulos fundamentais possuem edição portuguesa –, os critérios editoriais que regeram essas publicações só dificilmente permitem descortinar o seu percurso enquanto autor bem como as oscilações (de temas, de abordagens, etc.) desse mesmo percurso. Se já se tornou hábito o uso do adjectivo «dickiano» – e não é só a semelhança fonética que invoca o de um outro hermeneuta da realidade contemporânea, Kafka –, os textos que se seguem em muito contribuirão para avaliar a justeza (por entre a inquietante estranheza) da sua idiossincrática visão do mundo.
Títulos de Philip K. Dick editados e disponíveis em Portugal: The Cosmic Puppets: Marionetas Cósmicas, Mem Martins, Europa-América. Solar Lottery: Lotaria Solar, Mem Martins, Europa-América. Eye in the Sky: Universos Paralelos, Lisboa, Edições 70. The Man Who Japed: O Profanador, Mem Martins, Europa-América. Time Out of Joint: O Homem mais Importante do Mundo, Lisboa, Livros do Brasil. Vulcan’s Hammer: A Máquina de Governar, Lisboa, Livros do Brasil. The Man in the High Castle: O Homem do Castelo Alto (2 vols.), Lisboa, Livros do Brasil. Doctor Bloodmoney, or How We Got along after the Bomb: Depois da Bomba, Lisboa, Livros do Brasil. The Game-Players of Titan: Os Jogadores de Titã, Lisboa, Livros do Brasil. The Simulacra: O Tempo dos Simulacros, Lisboa, Livros do Brasil. Now Wait for Last Year: À Espera do Ano Passado, Lisboa, Presença. Clans of the Alphane Moon: Os Clãs de Lua de Alfa, Mem Martins, Europa-América. The Crack in Space: A Fenda no Espaço, Mem Martins, Europa-América. The Three Stigmata of Palmer Eldritch: Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, Mem Martins, Europa-América e Lisboa, Presença. The Zap Gun: A Arma Impossível, Lisboa, Livros do Brasil. The Penultimate Truth: A Penúltima Verdade, Mem Martins, Europa-América. Do Androids Dream of Electric Sheep?: Blade Runner: Perigo Iminente, Mem Martins, Europa-América. Ubik: Ubik, Mem Martins, Europa-América e Lisboa, Presença. The Preserving Machine & Other Stories: A Máquina Preservadora (colectânea de contos em 2 vols.), Lisboa, Livros do Brasil. Flow my Tears, the Policeman Said: Vazio Infinito, Mem Martins, Europa-América. Deus Irae (com Roger Zelazny): O Deus da Fúria, Lisboa, Livros do Brasil. A Scanner Darkly: O Homem Duplo, Lisboa, Livros do Brasil. VALIS: O Mistério de Valis (2 vols.), Lisboa, Livros do Brasil. The Divine Invasion: A Invasão Divina, Lisboa, Livros do Brasil. The Transmigration of Timothy Archer: A Transmigração de Timothy Archer, Mem Martins, Europa-América. e ainda a colectânea póstuma de contos Pago para Esquecer, Lisboa, Presença.
Bibliografia citada: 1975 Science-Fiction Studies, n.º 5 (vol. 2, pt. 1), Terre Haute, Indiana State University, Março de 1975. 1988 Science-Fiction Studies, n.º 45 (vol. 15, pt. 2), Montréal, SFS Publications, Julho de 1988. 1993 Je suis vivant et vous êtes morts, Paris, Seuil, edição inglesa I Am Alive and You Are Dead: A Journey into the Mind of Philip K. Dick, Nova Iorque, Henry Holt & Co., 2004, tradução de Timothy Bent. 1993 The Encyclopedia of Science Fiction (2.ª ed.), Londres, Orbit, 1999. 1999 The World Philip K. Dick Made, tese de doutoramento em Retórica, Berkeley (CA), University of California at Berkeley, 194 pp. policopiadas. 1974 New Worlds for Old: The Apocalyptic Imagination, Science Fiction, and American Literature, Garden City (NY), Anchor Books/Doubleday. 1982 Apocalypse and Science Fiction: A Dialectic of Religious and Secular Soteriologies, Chico (CA), Scholars Press/American Academy of Religion. 1973 «Science Fiction: A Hopeless Case – with Exceptions», Science Fiction Commentary, Julho-Setembro de 1973, tradução de Werner Koopman, republ. in Rottensteiner, Franz (org.), Microworlds: Writings on Science Fiction and Fantasy, Nova Iorque, Harcourt, Brace & Jovanovich, 1984, pp. 45-105. 2005 «Lugares (In)comuns: A Lógica dos Espaços Alternativos na Ficção Científica de Philip K. Dick», Revista de Comunicação e Linguagens, n.º 34-35 («Espaços»), Lisboa, Relógio d’Água, 2005, pp. 183-194. 1979 «PHILIP K(ENDRED) DICK» [sic], in Nicholls, Peter (org.), The Science Fiction Encyclopedia, Garden City (NY), Doubleday, pp. 168-169. 1993 «PHILIP K(INDRED) DICK», in Clute, John e Nicholls, Peter (orgs.), The Encyclopedia of Science Fiction (2.ª ed.), Londres, Orbit, 1999, pp. 328-330. 1989 Divine Invasions: A Life of Philip K. Dick, Secaucus (NJ), Carol Publishing, 1991. 1989 The Shifting Realities of Philip K. Dick: Selected Literary and Philosophical Writings, Nova Iorque, Vintage, 1995. 2005 «Coming to Terms», in Gunn, James e Candelaria, Matthew (orgs.), Speculations on Speculation: Theories of Science Fiction, Lanham (MD), The Scarecrow Press, 2005, pp. 13-22.
Notas: 1 Na primeira edição, de 1979, o crítico e autor Brian Stableford fazia uma descrição um pouco mais modesta: «American writer, one of the leading figures of contemporary sf.» (Stableford, 1979, p. 168) 2 Logo a abrir o seu segundo ano de edições: trata-se do número 5, datado de Março de 1975. 3 Cf. os artigos «Dick in France: A Love Story», de Roger Bozzetto e «Dick, the Libertarian Prophet», de Daniel Fondanèche, ambos para a Science-Fiction Studies n.º 45, de Julho de 1988. 4 Usamos o termo SF como intercambiável com «ficção científica» (mas também com «speculative fiction»), em conformidade com a prática anglo-saxónica. Em «Coming to Terms», artigo que aborda justamente esse problema de nomenclatura do género, Gary K. Wolfe dá-nos uma condensada razão para a adopção da sigla SF: «if “sci-fi” is the “nigger”, SF is its “Ms.”» (Wolfe, 2005, p. 21).
5
Esta última hipótese é a defendida por Pamela Renee Jackson na sua tese de
doutoramento intitulada The World Philip K. Dick Made, apresentada ao
departamento de Retórica da University of Califórnia at Berkeley em 1999.
Em contrapartida, Emmanuel Carrère, na biografia Je suis vivant et vous
êtes morts, alega que a consciência desse facto é, no essencial, muito
anterior, remontando a esse inesperado sucesso de The Man in the High
Castle:
6 Cf. a seguinte passagem do artigo de Lem que acima referimos: 7 Note-se contudo que esta produtividade era já elevada – em 1953, por exemplo, escreveu 36 títulos, mas o predomínio cabe nesta época aos contos e novelettes, enquanto na década seguinte cabe às novelas. Só com a viragem para a década de 1970 (cf. adiante) Dick abranda o ritmo. 8 Foi duplamente nomeado em 1965 por Dr. Bloodmoney e The Three Stigmata of Palmer Eldritch, em 1968 por Do Androids Dream of Electric Sheep?, em 1974 por Flow my Tears, the Policeman Said, e em 1982 por The Transmigration of Timothy Archer. 9 Talvez, a par com A Maze of Death (de que contudo existe tradução brasileira), uma das maiores lacunas no panorama editorial português. 10 São inúmeras as atribulações por que passou o conto «The Unteleported Man», depois «novelizado», até chegar à versão – de certa forma ainda provisória – que recebeu postumamente o título Lies, Inc. Para um resumo dessas peripécias, cf. o meu artigo «Lugares (In)comuns: A Lógica dos Espaços Alternativos na Ficção Científica de Philip K. Dick» (Rosa, 2005). 11 «Con» é a abreviatura de «convenção», encontro de fãs, escritores e críticos literários que pode oscilar do excêntrico ao profundamente académico. 12 Não devemos contudo esquecer contos escritos ainda na década anterior, como «Second Variety», que prepararam o terreno. 13 Um dos símbolos dos cristãos primitivos – o que, sendo Dick um episcopaliano praticante desde meados dos anos 60, terá uma importância capital. 14 Contrariando a prática que adquirira desde a adolescência de dactilografar directamente (e a grande velocidade), o que fazia inclusive com as cartas pessoais. 15 Em particular o académico Eric S. Rabkin, que no artigo «Irrational Expectations; or How Economics and the Post-Industrial World Failed Philip K. Dick» (na Science-Fiction Studies n.º 45) avança a hipótese de que Dick estava irremediavelmente louco. 16 Constituída por VALIS (sigla que significa «Vast Active Living Intelligent System»), The Divine Invasion, e a sua derradeira obra, com pouco ou nada de ficção científica (baseada de resto na vida do seu amigo pessoal o bispo James Pike), intitulada The Transmigration of Timothy Archer. A estas três novelas convém ainda acrescentar uma quarta, póstuma ainda que tivesse sido o primeiro draft de VALIS, Radio Free Albemuth. 17 Pamela Jackson explica de forma bastante plausível como Dick terá feito essa ligação à sua obra anterior: «Dick’s quest for the Real takes him back, ironically, into fiction. […] Has he fallen into one of his own novels? Or could it be that his own novels have been telling the truth about our world all along – our real world whose perverse, science fictional, even demonic nature is only becoming evident? Either way, his novels are now acquiring, for him, the “ring of revealed truth”. The writer begins to study his books like a detective, looking for the cosmic secrets he now suspects might be encoded in their science fiction surfaces.» (Jackson, 1999, p. 3) 18 David Ketterer, em New Worlds for Old (Ketterer, 1974), define a sensibilidade apocalíptica (particularmente na SF) como sendo «the present world in other terms» – é aliás o título de um dos capítulos principais desse livro. Frederick Kreuziger, mais bem munido do vocabulário conceptual da teologia, recuperou a ideia renomeando-a como «disjunctive expectation» em Apocalypse and Science Fiction (Kreuziger, 1982). Ainda que carecendo de ilustrações da última fase da obra de Philip K. Dick, o seguinte excerto desse livro encaixa como uma luva no final de «How to Build a Universe…»: «The result is that in the future it is not the future that will be better known, it is the promise that will be better known; as will also the present be known better. The validation of the promise then, is not in its material realization, but in the knowing of it.» (Kreuziger, 1982, p. 179, ênfase nossa)
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