Nos Labirintos do Fantástico


 

Cais, Abril de 2007

 

No dia posterior à cerimónia de entrega dos Óscares, o jornal El Pais classificou como «triunfo agridoce» a conquista de três das seis estatuetas a que havia sido nomeado o filme do mexicano Guillermo del Toro O Labirinto do Fauno — também vencedor da edição deste ano do nosso Fantasporto. Em boa verdade, os prémios de direcção artística, fotografia e maquilhagem ficam algo apagados perante a possibilidade, essa falhada, de ter sido o melhor filme de língua estrangeira, honra que coube a As Vidas dos Outros, drama sobre a situação pré-queda do Muro de Berlim.

Vitória do realismo sobre a fantasia, dir-se-á, mas em que medida é O Labirinto do Fauno apenas uma fantasia? A história decorre numa Espanha pós-Guerra Civil em que a resistência ao regime de Franco se reduziu a alguns focos de guerrilha; Ofelia, de 12 anos, chega com a mãe grávida a uma povoação controlada pelo cruel capitão Vidal, seu novo padrasto, obcecado com a captura dos rebeldes escondidos nas montanhas. Perante o frágil estado de saúde da mãe e a indiferença do capitão, a sua imaginação, alimentada pela leitura de contos maravilhosos, leva-a a mergulhar num mundo fabuloso. No ambiente lúgubre do labirinto nos jardins da sua nova residência, um fauno conta-lhe que é uma princesa que, para reconquistar a imortalidade e regressar ao seu universo, tem de passar — como em tantos contos de fadas — por três provas de bravura. Fosse apenas esta a intriga e poder-se-ia aceitar que, no sentido mais restrito da palavra — e do género –, se trata uma obra de fantasia, uma espécie de reactualização d’O Feiticeiro de Oz. Só que nem Ofelia é Dorothy — não há aqui estradas de tijolos dourados — nem as outras personagens são mero cenário: a gravidez ameaça a vida da mãe; o padrasto parece imparável na sua imposição do franquismo e na «caça» à resistência; e a governanta Carmen, irmã de um dos rebeldes e elo de ligação com estes, procura levar até eles o médico da vila para que trate dum ferido.

Em poucas palavras, a fantasia de Ofelia quase poderia passar por nota de rodapé deste duro mundo realista, mas em vez disso a sua relevância é central. É através dela que se insinuam outras fantasias, as que nenhuma das outras personagens quer reconhecer como tal: a da mãe, que acredita que o capitão a ama; a deste, que pensa ser dono e senhor do seu «condado»; a dos rebeldes, que ainda crêem na derrota do franquismo. E tal como para Ofelia, nem o mais brutal sofrimento físico parece lograr devolvê-los à realidade — muito pelo contrário, submergem ainda mais profundamente nas suas ilusões privadas, que nem a morte nem a chuva — presente em momentos-chave do filme — conseguem purgar.

Não revelemos contudo mais pormenores da intriga, sob pena de desvendar demasiado ao potencial espectador. Preferimos servir-nos do pouco que desta foi dito para sublinhar, regressando à questão inicial, o quanto costuma ser descurada esta capacidade de a fantasia — enquanto género ou modo ficcional — servir de janela para a realidade. Com uma meticulosa articulação entre os diferentes níveis da narrativa, O Labirinto do Fauno não sucumbe ao escapismo, como habitualmente se afirma acerca da fantasia; faz dele objecto de reflexão.

 

Texto: 15/Mar/07

© Jorge Martins Rosa