A Pulsão da Repulsão

 

 

Cais, Junho de 2007
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Até 30 de Setembro estará em Lisboa, no Palácio dos Condes do Restelo, na Escola Politécnica, a exposição «O Corpo Humano como Nunca o Viu» -- no original «Bodies... The Exhibition». Entre o macabro e o clínico, trata-se, como qualquer dos títulos indica, de olhar o corpo segundo uma perspectiva insólita: de dentro. Macabro é o facto de as «peças» em exibição serem cadáveres esfolados, dissecados e depois re-hidratados segundo um processo de polimerização que lhes devolve alguma aparência da vida que outrora tiveram. A comparação com os desenhos de ecorchés do Renascimento é inevitável, mas se aí se tratava -- pelo menos na recomendação de Leon Battista Alberti -- de começar pelo interior para dotar a figura de mais realismo depois de acrescentar-lhe a pele, aqui esta é o excesso que tem de ser retirado para que se aceda ao que oculta.

Daí a dimensão clínica da exposição (e não tanto pedagógica, apesar de assim se anunciar). Presume-se que a aprendizagem sistemática da anatomia e fisiologia humanas pela observação de cadáveres dissecados se deva a Hipócrates e seus discípulos, remontando ao século IV a. C. Apesar de reprimida por motivos religiosos na Idade Média, a prática não mais deixaria de constituir parte da medicina. Parte exclusiva, contudo, pois tinha algo de iniciático, de interdito ao resto dos indivíduos -- algo que ainda hoje sobrevive nos relatos (fictícios ou não) das praxes aos novos estudantes de medicina e no pudor ou receio que manifestamos perante a proximidade dum corpo que já não é mais do que cadáver. Continuou também a ser uma prática bastante artesanal, por não haver outra alternativa à observação do interior do corpo. Inanimado -- à letra, despojado da sua «alma» --, o cadáver servia uma última função, mostrando aos vivos aquilo que nestes continuava a pulsar.

A (dupla) viragem deu-se com a radiografia, no final do século XIX. Pela primeira vez, a tecnologia permitia visualizar o interior do corpo sem que fosse necessário tocar-lhe; pela primeira vez, essas imagens internas (mesmo que limitadas à estrutura óssea) tornavam-se acessíveis aos leigos. Espicaçada pelo cinema, que começava então a mostrar o longínquo, a curiosidade (ou «pulsão escópica») do espectador podia agora ser também satisfeita pela contemplação segura -- porque mediada por um dispositivo tecnológico -- do que nos é mais próximo mas também mais impenetrável.

Não é pois de admirar que as duas técnicas do olhar tenham progressivamente convergido. No sucesso de séries televisivas como Dr. House e CSI, bem como na actual moda de registar em DVD ecografias do feto em gestação, encontramos a prova dessa assimilação do clínico ao narrativo e do ficcional ao documental. Mas essa não é a única tendência. Da radiografia às técnicas mais avançadas de imagem médica, foi-se acrescentando uma melhor resolução, a cor (real ou falsa), o movimento e a pseudo-tridimensionalidade (que os videojogos tornaram familiar), como que perseguindo a materialidade que se escapou com a primeira dessas tecnologias. É essa materialidade aquilo que a presente exposição nos quer devolver, e com ela algo de que nos fomos desabituando: que o interior do corpo pode ter tanto de atractivo quanto de repulsivo.

 

 


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Texto: 15/Abr/07
Actualização: 8/Dez/07

Last Updated on Monday, 02 November 2009 20:44