Outros Tempos?

 

 

Cais, Janeiro de 2008
Licença Creative Commons: distribuição autorizada para usos não comerciais; interdita a cópia, modificação ou qualquer tipo de uso que não mencione a autoria original.

 

À semelhança do que tem vindo ininterruptamente a acontecer nas últimas duas décadas e meia com a reedição de discos em CD, todo um acervo de filmes e séries de televisão pode agora ser encontrado em DVD, constituindo um verdadeiro mercado da nostalgia. Quer se trate dum blockbuster cinematográfico de há seis meses ou de uma relíquia dos tempos da TV a preto e branco, o consumidor típico será muito provavelmente um adulto com um poder de compra suficiente para destinar parte do orçamento a produtos culturais tangíveis. Os leitores portáteis de MP3 e os downloads (legais ou não) da Internet podem ser a regra para a geração seguinte, mas para ele são algo demasiado virtual, e por isso a excepção.

Pensar que os filhos ou netos vão algum dia olhar sequer para a caixa de DVDs de uma qualquer série infantil de outra década é pura ingenuidade: os seus destinatários são os adultos, ou melhor, as crianças de outrora que pagam para recordar aquilo que em tempos lhes deixou boas memórias. Não deixa por isso de ser inesperado que a recente edição, nos Estados Unidos, das primeiras temporadas da série «Rua Sésamo» trouxesse a advertência de que «se destina a adultos, e não é adequado à realidade das crianças em idade pré-escolar». Que agora se destina a adultos é óbvio; estranho é que tenha deixado de cumprir a sua função original, que tantos elogios mereceu durante décadas: ser uma forma educativa de entretenimento infantil. Por que não deve uma criança hoje -- mesmo que apenas para satisfazer a contragosto as insistências dos pais -- ver a «Rua Sésamo» do final dos anos 60?

A lista de potenciais ofensas é quase interminável. O Monstro das Bolachas não só tem uma alimentação obsessiva e pouco saudável (bolachas, claro!) como também aparece ocasionalmente com um cachimbo. Há quem viva numa lata de lixo. O Egas e o Becas dormem na mesma cama. O Poupas tem um amigo que só ele consegue ver... ou será uma alucinação? Logo no primeiro episódio, há uma criança que aceita o (inocente) convite de um estranho para conhecer o resto da família e lanchar leite com bolos. Nos excertos documentais sobre a vida rural, ordenha-se à mão, entre outras violações das actuais exigências sanitárias mínimas.

Como insinua um daqueles e-mails que circulam de forward em forward, parece que antes vivíamos perigosamente -- subíamos às árvores, esfolávamos os joelhos, vínhamos da escola sozinhos, e até mascávamos pastilhas elásticas com açúcar, arriscando uma cárie ou duas --, enquanto hoje envolvemos as crianças numa bolha asséptica, não as deixando dar um passo sem primeiro conferir todas as recomendações de segurança, e brincarem na rua sozinhas está obviamente fora de causa. Há contudo uma falácia escondida neste raciocínio: é verdade que os tempos mudaram, mas não as crianças. Acima de tudo, quem mudou fomos nós, a tal geração que se gaba de ter tido um modo de vida em que, como os videojogos eram uma novidade e a televisão só iniciava as emissões a meio da tarde, se tinha de ocupar o resto do tempo com outras actividades mais tradicionais. Dizemos que agora tudo é artificial, que tudo é perigoso, que «estes miúdos» não sabem dar valor à abundância de jogos e brinquedos que não tivemos, mas no fim de contas somos nós quem lhes proporciona essa abundância e essa bolha de segurança que não é mais do que o reflexo dos nossos receios.

 

 


© This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it
Creative Commons License
Ao abrigo de uma licença Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 (Portugal).

Texto: 15/Out/07
Actualização: 8/Dez/07

Last Updated on Monday, 02 November 2009 20:38