Linhas Rectas, Círculos e Espirais
Cais, Junho de 2007
Quando se trata de compreender a História, é forte a tentação de imaginá-la sujeita a forças supra-humanas, equiparáveis às leis da Física. Mau grado as críticas epistemológicas, as ideias antagónicas de um progresso cumulativo (material e técnico, logo também civilizacional) ou de uma oscilação cíclica entre períodos de ascensão e de declínio continuam a atrair, por conferirem a ilusão de que a História tem um sentido, de que podemos prever as suas tendências, mesmo que não controlá-las. Uma recente encarnação desse «espírito de sistema» foi proposta por William Strauss e Neil Howe em 1992, no livro Generations. A ideia -- tão cativante que levou Al Gore, então vice-presidente dos EUA, a oferecer um exemplar a cada membro do Congresso -- é a de que a cada 80 anos se renova um ciclo de quatro gerações, e que os seus representantes mais significativos (poetas, estadistas, activistas, …) reproduzem outros tantos arquétipos – o profeta, o nómada, o herói e o artista –, cada um desempenhando uma função distinta à medida que atravessa os quatro tempos do ciclo – despertar, revelação, crise e auge. Assim, a chamada «Geração X» dos que nasceram entre 1960 e 1980 estaria em breve destinada a replicar a «Geração Perdida» de «nómadas» como Ezra Pound, Al Capone ou Eisenhower, a ela se seguindo, dentro de vinte anos, uma geração de «heróis» nascidos até 2000. Os pressupostos desta filosofia da História são obviamente questionáveis. É contudo inegável, quanto mais não seja em campos menores como a moda ou a música, a existência de um «efeito geracional» que leva a que as calças «boca de sino» e o disco tenham reaparecido na década de 90 e agora se assista a um regresso do electro-pop que marcou os anos 80. E a tecnologia? Na medida em que é o sinal mais evidente dum progresso cumulativo, contraria ela este efeito cíclico ou tão-só o modula? Há vinte anos poucos sabiam da existência da Internet, agora ubíqua, e o CD era uma novidade, mal se adivinhando os problemas de copyright trazidos pelo MP3. Atente-se na evolução das agendas pessoais. Quando poucos precisavam de gerir um calendário profissional, essa era tarefa para as secretárias; as agendas eram grandes e volumosas, conotando autoridade. O pessoalíssimo Filofax, ainda que inventado em 1921, precisou de esperar pela década de 80 -- altura em que subitamente todos eram potenciais yuppies -- para se tornar popular. Na viragem do século, as vendas atingiram um mínimo, enquanto crescia o uso dos PDA. Em pleno auge destes «assistentes digitais», opta-se agora -- ao bom estilo retro -- pela reabilitação do papel: em 2005, o blogger e programador Merlin Mann, inspirado por uma nova abordagem à gestão de tarefas pessoais, a «Getting Things Done», propôs o Hipster PDA, que, como aquela, gerou na Internet um culto de seguidores. O h-PDA não é mais do que uma versão «faça você mesmo», adaptada à realidade digital e ao imperativo da reciclagem, do velhinho Filofax. Em tempo de recolher, processar, delegar e agir -- lemas da «GTD» que a assemelham a um algoritmo de Inteligência Artificial --, o papel torna-se o novo parceiro da apregoada simbiose entre homem e computador. Perante a avalanche da técnica, talvez haja apesar de tudo lugar para ciclos e revivalismos, mas, como numa espiral, nunca se regressando ao mesmo ponto.
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Texto: 15/Abr/07 |
| Last Updated on Monday, 02 November 2009 20:37 |







































