«Don’t Worry, Be Happy!»

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«Don’t Worry, be Happy!»

 

 

Há muito que foi notado o quanto se perde ao transpor
para a escrita a multidimensionalidade do discurso oral. Entoações, pausas
ou flutuações de volume, elementos inevitavelmente ligados à voz, mas
também expressões faciais, gestos ou posturas desvanecem-se quando fixados
nesse outro meio. Apesar do legado de Derrida, o filósofo que mais fez
pela restituição da centralidade da escrita — ou melhor, pela descoberta
de quanto o oral se rege pela escrita devido à iterabilidade dos actos de
fala –, a atitude da cultura ocidental perante este seu traço fundador é a
de tomá-lo como uma espécie de «pecado original» carente de redenção. Se
Platão começara por denunciar o definhamento da memória, o cristianismo
adoptou o ambíguo e prudente «verba volant, scripta manent»: a palavra
falada percorre distâncias, mas também se esvai; a escrita resiste ao
tempo, embora isso de nada valha se permanecer imóvel.

Procurando aproximar as duas modalidades verbais, e com
isso conciliar Livro e pregação, os monges medievais adoptaram e
introduziram todo um conjunto de marcas auxiliares para facilitar a
leitura adequada das Escrituras. Entre a impossível codificação de todas
as nuances orais e a exigência de simplicidade, vingaram apenas símbolos
fundamentais, como vírgulas e pontos, com o máximo de extravagância a
ficar-se talvez pelo ponto de exclamação. Alcanter de Brahm, poeta francês
do século XIX, chegou a sugerir um — talvez demasiado revelador — «ponto
de ironia», e mais tarde conterrâneos como Hervé Bazin levariam a ideia ao
cúmulo, criando outros «pontos»: de dúvida, de aclamação, de indignação ou
mesmo de amor. Apesar de depois aproveitada num desenho animado educativo,
a proposta mal saiu das vanguardas literárias.

Ora, a serem verdade os aforismos de McLuhan segundo os
quais a era da comunicação electrónica constitui um (sofisticado) regresso
a uma forma de tribalismo e de oralidade, a necessidade de sinais
diacríticos como esses deveria algum dia tornar-se premente. Não
esqueçamos que, ao anunciar uma cultura pós-tipográfica, em nenhum momento
McLuhan a descreveu como anti-tipográfica: a escrita não tem de
desaparecer; antes se adapta aos meios que agora a «colonizam», como ela
antes colonizara a fala.

Façamos uma ressalva. Os múltiplos géneros do discurso
escrito, em particular nas suas modalidades mais formais — o discurso
jurídico (a que os anglófonos chamam «legalese»), a correspondência
institucional e empresarial, etc. –, levaram séculos a aperfeiçoar-se e,
por isso, hão-de resistir a mudanças súbitas. Mas nos novos meios
electrónicos, que se aproximam da oralidade por propagarem as mensagens de
modo quase instantâneo, com isso estreitando as distâncias, a escrita é
uma possibilidade entre outras e não o fulcro da comunicação. É neles que
se pode fazer jogo duplo, ora tornando «escrito» o que era do domínio do
«oral» (leia-se Gramophone, Film, Typerwriter, de Friedrich Kittler,
onde o advento dos registos sonoros é tomado como ponto de viragem na
cultura ocidental), ora investindo em novas formas de re-oralizar o
discurso escrito.

Foi graças ao e-mail e às BBS, numa altura em que só
uma reduzidíssima minoria composta por militares, académicos e
informáticos dispunha desses meios, que finalmente surgiu, se standardizou
e disseminou o uso de smileys ou emoticons. As comunidades
de fãs de sword
& sorcery
e dos role-playing games tinham já adoptado a ideia do
escritor americano Ambrose Bierce, a combinação «__/!» no final de uma
frase, como marcador de ironia ou humor. Mas só há 25 anos, num fórum de
ciências da computação, surgiu a «proposta ganhadora», o bem conhecido 🙂
. Seja pelo seu carácter de «ovo de Colombo», seja pela versatilidade que
levou a inúmeras — algumas bem barrocas — variantes, certo é que em
meados dos anos 90 não havia manual de introdução à Internet que não
ensinasse aos novatos o seu significado. Os programas de chat e de
instant messaging levaram os smileys a um novo nível ao representá-los como
imagens fixas ou animadas — contrariando inclusive o objectivo inicial,
que era o de serem usados num meio exclusivamente de texto ASCII.

Hoje, passado o fascínio inicial, o seu uso tornou-se
mais moderado mas nem por isso desapareceu. De resto, mais importante do
que saber o quanto são ainda utilizados é perceber o que ajudaram a
alterar, seja no contexto da comunicação mediada pelo computador seja no
campo mais alargado da interacção humana. Meio de «banda curta», ainda que
actualmente se possam anexar documentos com vários megabytes, o e-mail
(tal como os SMS) adequa-se melhor a mensagens sucintas em que,
dispensados alguns formalismos (excepto nalguns e-mails
corporativos, repletos de inúteis cláusulas de salvaguarda), os equívocos
estão sempre à espreita. Os smileys, pensados para minorar essa ambiguidade,
aligeiraram ainda mais o tom, deixando a distância social reduzir-se,
fosse quem fosse o destinatário. Fenómenos mais recentes como os blogs
ou as redes sociais podem por isso ser entendidos como rebentos desse
casamento feliz entre e-mail e emoticons: os seus interlocutores são,
tanto ou mais do que outrora o eram as epístolas de S. Paulo, o mundo e
não alguém em particular.

 

 


© Jorge Martins
Rosa




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Texto: 15/Set/07
Actualização: 13/Mar/08