A Dois Tempos

Imagens da Máquina na Cibercultura

Conferência Internacional «Imagem e Pensamento», Lisboa, Auditório do Museu/Colecção Berardo, 6 de Dezembro de 2007. Organização conjunta do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens e do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho

in Moisés de Lemos Martins, José Bragança de Miranda, Madalena Oliveira e Jacinto Godinho (orgs.), Imagem e Pensamento, Coimbra, Grácio Editor, 2011, pp. 99-106. [ISBN 978-989-8377-12-8]

Licença Creative Commons: distribuição autorizada para usos não comerciais; interdita a cópia, modificação ou qualquer tipo de uso que não mencione a autoria original.

 

Podemos acreditar ou até fazer votos para que a singularidade tecnológica esteja ainda longe1. Enquanto facto, entenda-se, que o conceito parece ser já um elemento incontornável da cibercultura. Idem para outras palavras fortes que lhe vêm habitualmente associadas, como as de trans-humanismo ou pós-humanismo. É desses conceitos e dos discursos que os articulam que aqui nos queremos ocupar, mas — advertência absolutamente necessária — não na forma que hoje em dia assumem. Não nos interessa pois perscrutar directamente o que dizem os seus actuais
arautos, caso de Ray Kurzweil, Vernor Vinge ou Hans Moravec, e sim
identificar a origem de semelhantes propostas que aproximam homem e
máquina, no limite prescindindo da própria ideia de humanidade.

Dada a ambição — e extensão — da tarefa, convirá que os
passos sejam seguros e muito concretos, mesmo que pequenos. Para a
presente ocasião, propomo-nos apenas identificar alguns sinais precoces
dessa forte imagem actual que é a de uma hipotética simbiose entre máquina
e humano.

Marco inevitável, e por isso aposta segura para uma
primeira aproximação, é a obra de Norbert Wiener, em particular o texto
que este quis destinar a um público alargado, The Human use of Human
Beings
, também conhecido pelo subtítulo Cybernetics and Society. Aí, entre
as páginas 31 e 32 da edição brasileira, encontramos uma passagem com uma
notável importância para o nosso propósito, se não mesmo central para uma
genealogia da cibercultura2:

 

«Sempre que encontremos um novo fenómeno que partilhe, em
certo grau, da natureza daqueles que já denominamos de “fenómenos vivos”,
mas que não se conforme a todos os aspectos correlatos que definem o termo
“vida”, vemo-nos defrontados com o problema de ou alargar o âmbito da
palavra “vida”, de modo a que passe a reabrangê-los, ou a defini-la de
modo mais restrito, a fim de excluí-los. […] Agora que certas analogias de
comportamento entre a máquina e o organismo vivo estão sendo observadas, o
problema de se a máquina é ou não viva constitui, para nossos propósitos,
um problema semântico, e temos a liberdade de resolvê-lo da maneira que
melhor atender às nossas conveniências. Como diz Humpty Dumpty a respeito
de algumas das suas palavras mais notáveis: “Pago-lhe extraordinário e as
faço fazer o que desejo”.» (Wiener, 1950, pp. 31-32)

 

Máquina e organismo, outrora configurando dois domínios
bem distintos, parecem, segundo Wiener e por via das promessas da
cibernética, estar a aproximar-se, a ponto de a própria definição de vida
estar à beira de uma necessária arrumação semântica. Se escolhida a via
mais restritiva, a máquina continuará de fora; se a mais abrangente, o
conceito acomodar-se-á a esta. Ainda que Wiener pareça assumir uma posição
neutra — e daí a aparente tranquilidade ao afirmar que se trata apenas de
uma questão linguística — essa atitude é, na letra do texto mesmo que não
nas suas convicções mais profundas3, indício de aprovação de novas e
admiráveis possibilidades. Ou tão-somente o reconhecimento do inevitável.

Note-se contudo que Wiener descura aí um passo
intermédio. Ainda que à data tenha começado a tornar-se plausível essa
assimilação da máquina ao organismo, é falso que os domínios estivessem
tão disjuntos quanto essas linhas aparentam. Como nos recorda o
incontornável ensaio de Georges Canguilhem, «Machine et Organisme», a
ciência moderna de origem cartesiana, continuando a postular o primum
mobile
divino como causa primeira ao mesmo tempo que o dispensava das
teorias que procuravam descrever e explicar o funcionamento dos organismos
— «a teoria depende de um logro: pretende fazer caso omisso da existência
concreta daquilo que pretende representar», afirma Canguilhem (1952, p.
47)4 –, prepara o terreno para que o corpo do animal (e
a fortiori também o
humano) seja analisado (ou, por que não dizê-lo, dissecado) como se de uma
máquina se tratasse5.

Não nos cabe aqui resumir o resto da argumentação de
Canguilhem, particularmente esse ponto fulcral que é a inversão da relação
entre máquina e organismo. Basta que percebamos, nem que seja apenas dum
ponto de vista especulativo, que a aproximação se vê largamente facilitada
a partir do momento em que o termo dominante passa a ser o organismo. E
assim é — regressando a Wiener — porque desenvolvimentos tecnológicos como
a cibernética procuraram levar às últimas consequências a perspectiva
segundo a qual os instrumentos e as máquinas estendem ou substituem as
acções humanas.

 

Como deixámos claro acima, não é relevante que a
realidade — isto é, a inovação tecnológica — tarde em tornar concretos
esses sonhos que para alguns são pesadelos. Muito mais interessante é a
especulação em torno de semelhantes possibilidades. Frequentemente — caso
da obra supracitada de Wiener, ou do rapidamente canonizado artigo de
Turing «Computing Machinery and Intelligence» –, assume uma forma
ensaística, mas — porque afinal é de ficções que se trata — também a literatura, em particular a de ficção científica,
costuma ser terreno fértil para esse tipo de explorações mentais. Por quer
não dizê-lo, é aí que se torna mais nítido o imaginário que tem vindo a
ser construído em torno da máquina e do papel desta na reconfiguração do
humano. Ainda que nem sempre logrando levar a bom porto um conjunto de
boas intuições, Patrícia Warrick, num artigo intitulado «Images of the
Man-Machine Intelligence Relationship in Science Fiction», relembra a
conhecida proposta do historiador e antropólogo Bruce Mazlish segundo a
qual estamos prestes a pôr de lado a «quarta descontinuidade» que
sustentava a nossa imagem de seres eleitos. Depois de Copérnico, que nos
retirou do centro do universo, de Darwin, que nos devolveu à condição de
animal entre outros animais, e de Freud, que desfez a ilusão da
racionalidade, é agora tempo de abandonar a oposição entre humano e
máquina:

 

«To the three discontinuities […], Mazlish adds a fourth
– one he sees as requiring elimination – just as did the first three […].
The fourth is the dichotomy or discontinuity between man and his machines.»
(Warrick, 1977, p. 186)

 

Embora sejam avanços reais na tecnologia
— mais
concretamente, o desenvolvimento dos computadores e, de modo mais geral,
da cibernética — aquilo que leva Mazlish a pressentir o fim da quarta
descontinuidade, é no campo da ficção que as suas possíveis consequências
têm vindo a ser examinadas. Publicado em 1977, o artigo de Warrick6 sugere,
por intermédio da conhecida distinção entre ficção científica
extrapolativa e especulativa, que na primeira destas modalidades dominam
as ficções pessimistas — se não mesmo distópicas — que ora retratam, num
futuro próximo, a inevitável rivalidade entre homem e máquina, em
competição por uma posição de domínio, ora se dedicam a descrever as
nefastas consequências sociais que assolam um mundo em que os humanos (em
particular a classe trabalhadora) se tornaram dispensáveis e em que,
portanto, a própria noção de humanidade está em risco7. Em contrapartida,
a ficção especulativa, menos restrita ao futuro próximo e aos ditames da
previsão social e tecnológica8, arrisca cenários em que o antagonismo é
trocado pela colaboração ou mesmo, em casos-limite, por algum tipo de
simbiose com a máquina. A quarta descontinuidade pode aqui — mesmo que nem
sempre tal ocorra — dar lugar a um continuum9.

Ainda que coerente, a proposta de Warrick carece de uma
actualização. Por um lado, o próprio artigo sofreu o natural desgaste do
tempo, já que dificilmente poderia ter antecipado o cyberpunk ou a deriva
da ficção científica rumo à fantasia em décadas mais recentes; por outro,
são poucas as ilustrações baseadas em obras de ficção (à data)
contemporâneas — há alguns títulos dos anos 70, mas nenhum posterior a
1974. Ora, ainda em 1973 James Tiptree, Jr. havia publicado a novella «The
Girl who was Plugged in»10 – que, aliás, receberia no ano seguinte um prémio
Hugo. A sua importância é (pelo menos) dupla: por um lado, trata-se de um
claro precursor tanto do movimento que nos trouxe escritores como William
Gibson, Bruce Sterling ou Neal Stephenson quanto do famoso «Manifesto for
Cyborgs», de Donna Haraway11; por outro, é aí proposta, para um futuro que
não parece muito distante – e cujo cenário também tende para a distopia –,
uma simbiose com a máquina que classificaríamos como «eufórica»12. Não que
se trate de uma originalidade suprema: pelo menos desde meados da chamada
golden age, nos anos 40, que essa simbiose é ocasionalmente apresentada em contextos
igualmente eufóricos e com um tom que se quer mais extrapolativo do que
especulativo13. Contudo — e aqui há que conceder alguma razão a Warrick
— não era essa a tendência mais comum. Com os anos 70, começa a ter lugar
uma mudança que viria a ser consumada na década seguinte com o cyberpunk,
uma mudança rumo a uma concepção que, trazendo ao de cima um dualismo
latente, sugere um novo denominador comum para a ligação entre máquina e
humano. Esse denominador, fazendo mais uma vez jus à nossa referência a
Wiener, é a informação.

 

Expliquemo-lo com a brevidade possível: por mais que se
concebam e construam máquinas à semelhança dos organismos, uma adequada
simulação só pode ter lugar se a máquina for um sistema aberto, que
interage com o que lhe é exterior14 através de uma combinação de sensores, efectores e ciclos de
feedback. Ora, se isso equivale a dotar a máquina da
capacidade de processar informação, não será também uma semelhante
capacidade aquilo que faz dos seres vivos algo vivo? Entre humanos e
robots — pelo menos os robots que Patrícia Warrick identifica na ficção
científica distópica e extrapolativa –, esse elemento em comum está ainda
subordinado a uma descontinuidade material, e a descontinuidade conduz
quase invariavelmente ao conflito, que assim se torna o motor da narrativa15. Ainda que nalguma ficção especulativa identificada por Warrick a
cooperação homem-máquina prevaleça sobre o conflito, não é claro se, mais
do que cooperação, a tendência dominante aponta para uma verdadeira
simbiose ou tão-só para uma interacção produtiva.

Ao eliminar a materialidade da equação
— o corpo, no caso
do animal e do humano, que é desprezado como mera «carne»16
–, o cyberpunk redescobre17 a velha oposição entre corpo e alma, entre
res extensa e res cogitans, propondo que a ambicionada continuidade entre máquina e humano
se reduza àquilo que, não deixando de ser comum a ambos, os transcende: a
informação. Como nos diz Stephen Potts, citando (no artigo «IBMortality:
Putting the Ghost in the Machine») a novela Software, de Rudy Rucker ao
mesmo tempo que ecoa o famoso «Teste de Turing»,

«if a machine could mimic all our behavior, both internal
and external, then it would seem that there is nothing left to be added.
Body and brain fall under the heading of hardware. Habits, knowledge,
self-image, and the like can be classed as software.» (Potts, 1996, p.
107)18

 

E como é no software que está armazenada a informação, o
hardware, ainda que não dispensável19, pode ser alegremente permutado. No
limite — e esta é a ambição de «visionários» como Hans Moravec ou Marvin
Minsky –, acederíamos também desta forma a um tipo muito peculiar de
imortalidade, transferindo a consciência para um novo e melhor hardware.
Ao mesmo tempo, conviveríamos com artefactos tanto ou mais inteligentes do
que nós — alguns puramente maquínicos, outros resultantes da produtiva
hibridação entre máquina e humano.

 

Ora — e com isso terminamos este percurso necessariamente
superficial –, se é na ficção científica que todas as variantes
imagináveis desta relação entre o humano e as suas máquinas têm vindo a
ser concebidas e examinadas, e se é também a esse género literário que
muitos dos prosélitos de uma certa cibercultura recorrem para divulgar as
suas pretensões20, isso demonstra a necessidade de analisar rigorosamente
as pontes que ligam a ficção — mesmo que não erudita, e talvez justamente
por não ser erudita — e, se não a realidade, pelo menos um contexto
cultural no qual estamos tão rodeados de todo o tipo de máquinas
informacionais que já não distinguimos entre estas e o ambiente natural.
Assinalar, como aqui fizemos, a existência de um primeiro período em que a
ideia de uma simbiose entre homem e máquina foi remetida para os
«subúrbios» mais especulativos da science fantasy e, já num momento mais
recente, o triunfo cyberpunk de uma modalidade dualista tornada possível
pela «descolagem» entre hardware e software, é uma modesta mas necessária
etapa rumo a um estudo mais aprofundado da genealogia da cibercultura e
dos seus ícones.

 


Bibliografia:

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tradução de José Casas, Carlos Laguna e Carmen Martínez Gimeno, pp. 37-59.

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Edwardsville (IL), Southern Illinois University Press, 1983, pp. 65-79.

 


Notas:


1
Opinião contrária tem o proponente da expressão, Ray Kurzweil, que afirma alegremente que «The singularity is near» (cf.
Kurzweil, 2001).


2
Um outro título de igual importância,
que não trataremos aqui — correndo com isso o risco de deixá-lo ainda mais
na penumbra a que tem sido relegado — é What is Life?, do físico Erwin
Schrödinger, que propõe avant la lettre (isto é, 10 anos antes da
descoberta do ADN) que se tratem as características genéticas como uma
forma de informação.


3
Sobre este conflito moral, se não
mesmo existencial, cf. a criteriosa biografia de Wiener Dark Hero of the
Information Age
, de Flo Conway e Jim Siegelman (Conway e Siegelman, 2005).

4 Ou ainda: «Descartes retirou à vida a teleologia, ainda que apenas de
modo aparente, pois concentra-a, na sua totalidade, no preciso ponto em
que a vida começa.» (Canguillem, 1952, p. 47) Historicamente, o que vingou
foi esse acto de subtracção.


5
Mesmo continuando a
acreditar-se que é mera habitação da alma, «o corpo obedece[-lhe] apenas
na condição de estar preparado mecanicamente para fazê-lo» (Canguilhem,
1952, p. 48, ênfases nossas), só que, em última análise, «quando todos os
órgãos corporais estão adequadamente dispostos para um movimento, o corpo
não tem qualquer necessidade da alma para produzir esse mesmo movimento»
(idem, ibidem).


6
Antecipando o livro de 1980
The Cybernetic Imagination in Science Fiction, onde estas ideias são
desenvolvidas sem que contudo recebam uma reformulação digna de nota.

7 Cf. a seguinte passagem: «The first thing we note in looking at those
images is that the prevailing mode of much of the SF portraying the
computer is dystopian. Two dark visions keep appearing. In one, the
computer replaces man as a worker. […] In the other view, the computer
— godlike in its power — tries to enslave man, controlling him and reducing
him to a robot servant.» (Warrick, 1977, p. 185)

8 Isto
é, mais próxima da fantasia do que do espartilho da hard sf.

9 De novo uma citação do texto de Warrick: «the man-machine relationship
is less likely to be portrayed as dichotomous. Bruce Mazlish’s fourth
continuum has been achieved. Man and machine exist in productive symbiosis,
and the machine is often seen as an extension of man as natural and useful
as his arms and legs.» (idem, p. 218)


10 Ainda que fosse
possível apelar a contos ou novelas ainda mais remotos em defesa da
argumentação que estamos a seguir, a nossa escolha, quer devido à data de
publicação quer devido à sua relevância na eclosão do movimento cyberpunk,
recaiu neste título.


11
Haraway agradece-lhe
explicitamente no final do manifesto, primeiro colocando-a ao lado de
outras autoras explicitamente feministas (o que não era o caso de Tiptree,
Jr.), depois referindo a famosa classificação da sua escrita (por parte de
Robert Silverberg) como «masculina», equívoco que permaneceu enquanto não
foi descoberto quem se ocultava por detrás do pseudónimo.

12 Retomo a expressão do artigo «Experiência e Experimentação: Notas sobre
Euforia e Disforia a Respeito da Arte e da Técnica», de Maria Teresa Cruz
(Cruz, 1999). Embora os anglo-saxónicos possuam termos alternativos, como
«tecnofilia» e «tecnofobia», pelo menos neste caso não soam tão adequados,
na medida em que quase implicam, respectivamente, «utopia» e «distopia».
Ora, a novella de Tiptree, Jr. demonstra que a distopia pode muito bem
conviver com uma euforia perante a(s) técnica(s).

13 O
conto «No Woman Born», de C. L. Moore, publicado em 1944 na revista
Astounding Science Fiction, é um dos exemplos mais frequentemente citados.

14 Mas também internamente, na medida em que o mesmo raciocínio tem de
aplicar-se aos seus componentes.


15 Já para não falar
nos casos — que, depois da nossa argumentação, talvez merecessem uma
categoria à parte, «pré-Wieneriana» — em que, com ou sem robots, a
sociedade mecaniza os seres humanos, caso de My, de Zamiatin.

16 Cf. a seguinte passagem de
Neuromancer, já citada num artigo anterior
(Rosa, 2007): «For Case, who’d lived for the bodiless exultation of
cyberspace, it was the Fall. In the bars he’d frequented as a cowboy
hotshot, the elite stance involved a certain relaxed contempt for the
flesh. The body was meat. Case fell into the prison of his own flesh.»
(Gibson, 1984, p. 12, ênfases nossas)


17 Mesmo que num
contexto aparentemente monista, pois a informação depende sempre de um
suporte material: a partir do momento em que a informação é definida como
algo independente de um suporte específico, isso autoriza Moravec e outros
a imaginarem downloads e backups da consciência.

18
Descuramos aqui um pormenor relativamente à posição de Rucker que numa
análise mais aprofundada deveria ser reintroduzido: para este matemático e
autor de ficção (e também descendente directo de Hegel), ao hardware e ao
software há ainda a acrescentar um elemento não computável e de uma
imaterialidade à beira do transcendente, a consciência (cf. Potts, 1996,
p. 108). Só este permitiria conciliar a objectividade pragmática do Teste
de Turing com o teorema da incompletude de Gödel, com isso concedendo às
máquinas (ou a uma simbiose como a do cyborg) o estatuto de algo «vivo».
Ora, como bem assinala Potts, esta posição «trans-hoilsta» (idem,
ibidem)
não é mas do que uma forma de misticismo, um misticismo ternário que faz
lembrar os gnósticos, com a sua divisão corpo-alma-espírito (cf. também
Erik Davis, 1998).


19
Assumindo a definição gibsoniana
de ciberespaço, o hardware poderia reduzir-se à rede de máquinas (a
«matriz») que armazena todo o tipo de dados: «Literalizing abstractions,
cuberspace creates a level playing field where abstract entities, data
constructs, and physically embodied consciousnesses interact on an equal
basis. All forms are equivalent in this space; none is more physically
real or immediate than any other.» (Hayles, 1996, p. 115)

20 É por exemplo o caso de Marvin Minsky, que escreveu em parceria com
Harry Harrison (este último escritor profissional) a novela de ficção
científica The Turing Option (Harrison e Minsky, 1992). Mas é também, por
que não dizê-lo, o caso de Norbert Wiener, que nos anos 50 publicou, sob o
pseudónimo W. Norbert, dois contos de ficção científica — cf. a entrada «Norbert
Wiener: Summary Bibliography
», no site The Internet
Speculative Fiction Database
.

 

 


© Jorge Martins
Rosa




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Texto: 4/Dez/07
Actualização: 13/Mar/08