Comunicar na Web

Noesis, Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (Ministério da Educação), n.º 77, Junho de 2009, pp. 60-61.
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Comunicar na Web

 

 

É habitual afirmar-se que a diferença entre a arte e o design consiste no facto de neste último a forma do produto ser definida pela sua função. Assim acontece com peças de roupa ou electrodomésticos, e assim se espera que ocorra também com os sítios da World Wide Web. Ao marcarem uma presença online, é necessário concebê-los de acordo com uma finalidade — noticiar acontecimentos, comercializar produtos, apresentar uma marca ou uma pessoa, por exemplo: em qualquer dos casos, facultar o acesso a informação.

Estabelecido esse objectivo primordial, apresentam-se outras exigências. Assinalamos três: as condicionantes técnicas do meio, a usabilidade, e a criação ou manutenção de uma identidade própria. A história do design de sítios web — bastante recente, pois conta com menos de duas dezenas de anos — é por isso a história do modo como se tentaram (e tentam) conciliar essas exigências, por vezes à beira da incompatibilidade. Logo no início dos anos 90, um marco importante: a possibilidade de associar imagens aos documentos HTML, até aí limitados ao texto. Em tempo de ligações lentas, a sua utilização era tímida, mas depressa se caiu no extremo oposto: demasiada cor e demasiadas animações, prejudicando a função informativa. Com algumas modas passageiras pelo meio, hoje essas contradições começam a desaparecer, desde que «domadas» por um design atento e cuidado.

Exemplo das actuais tendências é o sítio do Centro Cultural de Belém, que pode ser encontrado no endereço www.ccb.pt. A actividade principal desta instituição é a promoção de eventos culturais, e é isso que define os elementos visíveis na página de entrada. À direita, um calendário estabelece a dimensão temporal desses eventos, indo ao encontro do utilizador que pretenda consultar a oferta cultural num determinado dia. Ainda mais importante — e daí o posicionamento central na página — é a publicitação dessa agenda segundo um conjunto de categorias. A codificação por cores apela de imediato às capacidades cognitivas do visitante, que logo detecta algumas constantes cromáticas — verde-escuro, verde-claro, azul-claro, etc. –, e as associa às respectivas categorias («literatura», «dança», «jazz», …). Conservando este código de cores, alguns dos eventos, ora pela proximidade temporal ora pela relevância, são duplamente destacados: a imagem é maior e surgem posicionados logo abaixo da lista de categorias. Os restantes ficam abaixo, num tamanho menor mas mantendo a legibilidade. Finalmente, ao fundo da área central, outro grupo de imagens, que invocam os espaços da instituição: o centro de reuniões, a bilheteira, entre outros. As animações na área central são discretas, mas eficazes por responderem a duas necessidades comunicacionais: direccionar o olhar do utilizador e, dado o elevado número de eventos, resolver a dificuldade em anunciá-los devidamente se todos tivessem de ficar arrumados de forma estática. As pequenas setas abaixo dessas zonas devolvem o controlo ao utilizador, que, substituindo-se à animação automática, pode recuar e avançar ao seu ritmo. À esquerda, repete-se a divisão institucional: uma redundância que, bem doseada, facilita a interacção. Mais abaixo, uma breve lista de notícias dificilmente enquadrável nas categorias principais e, regressando à direita, a possibilidade de pedir a subscrição por e-mail de um boletim.

Não deve ser esquecidos outros elementos, também resultado de decisões de design: o tipo de letra, que procura ir ao encontro de critérios de legibilidade, uma ligação para a versão em inglês, um formulário de pesquisa, e, apesar de se tratar duma funcionalidade decorativa, a possibilidade de alterar a cor que envolve a página. O logótipo surge em cima, à esquerda, e, nos browsers que o permitem, também numa versão de 16×16 pixels — o «favicon» — na barra de endereço.

Finalizamos reiterando a importância de dois critérios que devem reger a concepção visual dos sítios web, e cuja presença é clara no do Centro Cultural de Belém. Por um lado, a fragmentação da janela em zonas semanticamente distintas (esquerda, centro, direita, acima e abaixo, etc.). Por outro, a imposição de uma escala de tamanhos que reflecte a importância relativa dos elementos a arrumar. A forma, como afirmámos de início, alia-se à função.

 

Sugestões de actividades

  • Navegar no sítio www.ccb.pt; identificar diferenças entre a página de entrada e o resto das páginas;
  • Procurar na Internet sítios cujas primeiras páginas:
    1. respondam de modo similar aos imperativos de organização espacial;
    2. o façam de forma distinta;
  • Sugerir outras formas de arrumação de elementos que permitam igualmente satisfazer as finalidades comunicacionais;
  • Discutir as opções cromáticas; sugerir outras possibilidades;
  • Em grupo, conceber uma ideia para um sítio web e criar, em papel, o seu layout gráfico e a sua estrutura de navegação;
  • (Apenas para alunos que já tenham disciplinas que leccionem estes conteúdos) Reproduzir, na medida do possível (dispensando as animações e outros elementos dinâmicos) o layout do sítio do CCB;
  • Criar à mão, numa grelha de 16×16, um ícone («favicon») dum sítio.

 

 

© Jorge Martins
Rosa




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Texto: Mai/09
Actualização: 29/Out/09